Política e Resenha

ARTIGO – Mandato à Distância: O Limite entre o Cargo e a Conveniência Política (Padre Carlos) 

 

 

Quando um parlamentar decide trocar o plenário de Brasília pelo lobby político em Washington, a pergunta inevitável é: ainda se pode falar em mandato legítimo? Foi essa questão que o presidente da Câmara, Hugo Motta, enfrentou ao responder sobre a ausência de Eduardo Bolsonaro, atualmente dedicado a articular com o governo Donald Trump e a defender agendas alinhadas à direita global.

A resposta foi direta: “Não há mandato a distância no regimento.” E não deveria haver. O regimento interno da Câmara é a espinha dorsal que garante a ordem e o equilíbrio de poderes. Que mensagem passaria o Parlamento se, por conveniência política, um deputado pudesse legislar de outro país?

Eduardo Bolsonaro fez uma “escolha política”, como disse Motta. Essa escolha, no entanto, não pode se sobrepor ao compromisso assumido com o eleitorado brasileiro. O precedente da pandemia não se aplica aqui: lá havia uma emergência de saúde pública, aqui há uma opção individual.

O Brasil vive um momento delicado, com ataques à soberania, sanções externas e debates sobre o papel de suas instituições. Permitir um “mandato remoto” por afinidade ideológica abriria um flanco perigoso: o esvaziamento da própria noção de representação popular.

Hugo Motta agiu como guardião do regimento e, por extensão, da credibilidade da Câmara. A política pode ser feita de alianças e narrativas, mas o exercício do mandato exige presença, escuta e responsabilidade com quem votou. Longe disso, o cargo se transforma em palco de interesses particulares — e a democracia perde seu chão.