
O que aconteceu na Câmara nesta semana não foi “protesto” nem “obstrução parlamentar”. Foi motim. Foi quebra deliberada da ordem institucional por quem jurou respeitar a Constituição. Cinco deputados — Marcos Pollon, Zé Trovão, Júlia Zanatta, Marcel van Hattem e Camila Jara — agora podem ser afastados por até seis meses, por decisão de Hugo Motta. E que fique claro: se isso não for punido exemplarmente, a porta estará escancarada para a repetição desse tipo de ato.
Parlamentar não é militante de rua. Não está ali para tomar cadeira à força, impedir sessão no grito ou transformar o plenário num ringue de empurra-empurra. O direito à oposição não inclui licença para paralisar o Legislativo como chantagem política. Liberdade de expressão não significa liberdade para impedir que os trabalhos aconteçam.
A cena que se viu — com insultos, empurrões e a tomada da Mesa Diretora — é sintoma de um fenômeno cada vez mais corrosivo: a política feita para a câmera do celular. Deputados transformam o Congresso em palco, encenam atos de rebeldia para ganhar aplausos virtuais e curtidas nas redes sociais, enquanto a agenda legislativa fica paralisada. A prioridade não é o país, mas a própria audiência.
É preciso dizer com todas as letras: isso não é “resistência democrática”. É espetáculo grosseiro, que enfraquece o Parlamento e rebaixa o debate político ao nível da força física. Se o Conselho de Ética passar pano, estará assinando um salvo-conduto para que, no próximo impasse, a negociação seja substituída pelo empurrão.
O afastamento temporário é pouco diante do tamanho da afronta. Mas é o mínimo para sinalizar que a Câmara não será refém de quem confunde mandato com militância agressiva. Democracia não se defende ocupando cadeira — defende-se cumprindo regras, respeitando adversários e usando o voto e a palavra como armas.
O Brasil não pode aceitar que a Casa do Povo se transforme em um palco permanente de motins transmitidos ao vivo. Porque, quando o grito e o empurrão substituem o diálogo, a política perde — e o país inteiro perde junto.




