
Por Padre Carlos
Ontem, como quem abre um baú esquecido pelo tempo, reencontrei um amigo do seminário. Quase vinte e cinco anos sem nos vermos. Ele me olhou com a curiosidade que só os antigos companheiros carregam e perguntou:
— E seus textos? Como evoluiu sua técnica nesses anos?
Fiquei pensando que técnica, para mim, nunca foi o centro da escrita. Escrever é um ato de presença — um gesto solidário com aqueles que a vida empurrou para fora das páginas oficiais da história. São homens e mulheres que caminham invisíveis, mas guardam em si um brilho antigo, como ouro misturado ao barro: não reconhecido, não lapidado, mas intacto em seu valor. Minha tarefa é limpar esse barro com palavras, até que o metal precioso volte a reluzir.
A filosofia e a teologia me ensinaram que a alma humana é um território feito de contradições. Ali dentro moram, lado a lado, o covarde e o herói, a virtude e a ruína. É dessa tensão que alimento minha escrita. Não se trata apenas de comentar política, mas de atravessá-la, para chegar ao chão onde o humano pulsa — com suas fragilidades, sua coragem e seu desejo de não ser esquecido.
Não uso mais batina, mas a formação sacerdotal continua me empurrando para uma visão que enxerga o mundo com sede de justiça e misericórdia. O articulista, no meu entender, é como um ponteiro que insiste em marcar as horas daqueles que o relógio do poder já decidiu parar. É dar voz aos silenciados: vítimas da violência, do abandono, da desigualdade que rouba o pão e o futuro.
Sei que o esquecimento é a lei natural. Um dia todos nós passaremos. Mas existe algo mais cruel que ser esquecido: é ser ignorado enquanto se está vivo — como se apagassem a chama de alguém que ainda respira.
Vivemos numa época em que a maldade se apresenta como virtude, a intolerância se veste de opinião e a morte se tornou espetáculo. É um tempo em que a vida vale menos se vier das periferias.
E, no entanto, sigo escrevendo. Escrever é minha forma de resistência. É dizer ao bom Deus, todos os dias, que não me rendi à borracha da indiferença. Porque chegará o momento em que nossos netos abrirão os livros e perguntarão:
— Onde estão as narrativas das mulheres, dos negros, dos indígenas?
Talvez encontrem, entre linhas amareladas, um punhado de histórias salvas do naufrágio. E, nelas, a certeza de que alguém se importou.




