Política e Resenha

Os Muros do Medo e o Silêncio da Esperança

 

 

Por Padre Carlos

Hoje me lembrei das palavras que Mia Couto, poeta moçambicano e vencedor do Prêmio Camões, proferiu naquela cerimônia. O poderoso discurso do poeta sobre o “medo global” é muito atual e nos lembra uma verdade incômoda: vivemos cercados por muros.

Não apenas de pedra, concreto ou arame farpado, mas de distâncias invisíveis que se erguem dentro de nós e entre nós. Há muros que separam países, traçados por linhas frias nos mapas — como o que Donald Trump construiu na fronteira com o México ou o que Benjamin Netanyahu está construindo em Israel. Mas não podemos esquecer os muros que dividem ricos e pobres, como os que estamos acostumados a ver no Brasil. Todos eles são construídos com a argamassa da indiferença e do privilégio.

Mas, como disse Mia Couto, não existe muro que separe os que têm medo dos que não têm. Porque o medo, quando chega, não respeita fronteiras, não pede passaporte, não pergunta o saldo da conta bancária. Ele se infiltra como vento por frestas abertas e faz morada em cada coração humano.

Eduardo Galeano, com sua lucidez cortante, nos lembra que “os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares. Os militares têm medo da falta de armas, e as armas têm medo da falta de guerras.” É um mundo em que o medo se reproduz como uma praga, adaptando-se a cada circunstância, vestindo novas roupas para se manter vivo.

O medo é o mais democrático dos sentimentos: atravessa castelos e favelas, palácios e barracos, salas de reunião e ruas desertas. Ele alimenta as indústrias que vivem de nossa insegurança, move o comércio das promessas de proteção e se infiltra nas conversas da manhã e nos sonhos da madrugada. O medo é o mercado mais lucrativo do planeta.

Mas há algo ainda mais cruel: quando aceitamos o medo como parte natural da vida, ele começa a ditar as regras. Silenciamos perguntas, abrimos mão de direitos, aceitamos muros, câmeras, cercas, grades e fechaduras — e chamamos tudo isso de “segurança”. Esquecemos que segurança sem liberdade é apenas prisão com outro nome.

Por isso, talvez o maior desafio do nosso tempo não seja destruir os muros visíveis, mas derrubar o muro invisível que separa o que somos do que poderíamos ser sem medo. Porque, no fundo, o medo é o alicerce de todos os outros muros. E talvez, como disse Mia Couto, o dia em que não tivermos mais medo será o dia em que as guerras, a fome e a injustiça perderão o seu combustível.

Até lá, seguimos vivendo sob as mesmas nuvens cinzentas, todos nós — reféns de um cárcere que não se vê, mas se sente em cada batida do coração.