Política e Resenha

O Silêncio que Sangra em Ilhéus

 

Por Padre Carlos

Há crimes que não matam apenas pessoas; matam a paz de uma cidade, o sentimento de pertencimento de uma comunidade e a própria ideia de humanidade. O assassinato brutal de Alessandra Oliveira Suzart, professora; de Maria Helena do Nascimento Bastos, também professora; e de Mariana Bastos da Silva, jovem universitária cheia de futuro, é um desses episódios que carregam um peso insuportável.

Três mulheres que saíram para um passeio comum, acompanhadas do cachorro da família, e nunca mais voltaram. Foram encontradas sem vida, com marcas de violência, numa mata em Ilhéus, Bahia. A cena cruel, marcada por sangue e covardia, expôs não apenas a fragilidade da segurança pública, mas também a falência de um sistema que há muito naturaliza a barbárie.

A morte dessas mulheres não é um caso isolado. Ela grita, em alto e bom som, sobre o desprezo pela vida humana que se espalha pelo Brasil. Quando mães, professoras e estudantes são arrancadas do convívio de suas famílias de forma tão bárbara, não é apenas uma tragédia pessoal; é um crime contra a educação, contra o futuro, contra a coletividade.

Ilhéus, uma cidade historicamente conhecida pela cultura, pela literatura de Jorge Amado e pelo turismo, agora vê seu nome estampado nas manchetes não por sua beleza, mas por um crime que fere o imaginário coletivo. O contraste é brutal: do cartão-postal paradisíaco para o cenário de horror, num piscar de olhos.

O Estado, mais uma vez, corre atrás do prejuízo. Investigações, perícias, diligências… tudo isso soa necessário, mas chega tarde. O que deveria ser prevenção transforma-se, como sempre, em reação. Enquanto isso, famílias choram e comunidades escolares entram em luto. A cidade decreta três dias de silêncio oficial, mas quem devolverá anos de sonhos interrompidos? Quem devolverá a sala de aula à professora, o convívio à filha, a esperança aos amigos e colegas?

Não é possível aceitar que esse crime caia na vala comum da banalidade. Não se trata apenas de estatística criminal, mas de um massacre que atinge a essência de uma sociedade civilizada. É preciso que a Justiça, desta vez, não seja cega de conveniência. Que os culpados sejam encontrados, julgados e punidos com o rigor que a lei permite.

Mais do que isso: é preciso encarar de frente o abismo social que alimenta a violência. A cada vida ceifada, não perdemos apenas indivíduos, mas pedaços da nossa humanidade.

A memória de Alessandra, Maria Helena e Mariana não pode ser soterrada pelo esquecimento. Elas devem permanecer como símbolo de resistência, de luta contra a indiferença e de cobrança permanente ao poder público.

Porque, diante de tamanha crueldade, o silêncio não é opção. O silêncio, neste caso, sangra.