
Por Padre Carlos, em 22 de agosto de 2025
O artigo de Ruy Castro publicado na Folha de São Paulo em 21 de agosto de 2025, intitulado “Deus, pátria e família para palerma ver”, é uma peça contundente de jornalismo opinativo que expõe as contradições inerentes ao discurso da família Bolsonaro. Castro, com sua habitual acidez e precisão, desmonta a narrativa de valores tradicionais – Deus, pátria e família – como uma mera cortina de fumaça para encobrir interesses pessoais, alianças internacionais questionáveis e uma agenda que prioriza o poder acima de tudo. Como ele bem aponta, esses lemas, tão repetidos em comícios e redes sociais, servem mais para enganar os “palermas” – os ingênuos ou desinformados – do que para guiar ações concretas. Mas o que torna essa crítica não apenas relevante, mas urgentemente grave, é o contexto atual de escândalos que envolvem a família Bolsonaro, revelando não só hipocrisia, mas uma ameaça real à soberania e à estabilidade institucional do Brasil.
Castro argumenta que os Bolsonaros, ao evocarem “Deus” enquanto toleram ou praticam atos de vulgaridade e falta de escrúpulos, transformam a fé em ferramenta política. Ele questiona a “pátria” quando sugere que o Brasil poderia se tornar uma “51ª estrela” na bandeira americana, curvando-se a influências externas como o governo Trump para quebrar a economia brasileira em troca de favores. E, quanto à “família”, o colunista destaca a proteção inabalável aos filhos – Flávio, Eduardo e Carlos – que, segundo ele, operam com impunidade, promovidos por tecnologias e estratégias que os blindam de responsabilidades. Essa análise não é mera retórica; ela ecoa nos fatos recentes que pintam um quadro alarmante de corrupção e tentativas de subverter a democracia.
A gravidade dessa situação se intensifica quando olhamos para as investigações em curso. Apenas nas últimas semanas, a Polícia Federal brasileira acusou Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo de obstrução de justiça, em um caso que envolve tentativas de interferir em processos judiciais. Além disso, há alegações de que Bolsonaro recebeu mais de 30 milhões de reais (cerca de 5 milhões de dólares) sem justificativa aparente, configurando um possível esquema de lavagem de dinheiro. Esses não são incidentes isolados: a Suprema Corte brasileira ordenou prisão domiciliar para o ex-presidente em 5 de agosto, acusando-o de tramar um golpe de Estado e desrespeitar ordens judiciais, incluindo proibições de uso de redes sociais. Pior ainda, revelações indicam que Bolsonaro planejava fugir para a Argentina, buscando asilo político junto ao presidente Javier Milei, em uma tentativa de escapar da justiça brasileira. Seu filho Eduardo também é acusado de coerção contra o Judiciário, reforçando a ideia de que a “família” opera como um clã protegido, acima da lei.
Esses escândalos não são apenas manchas no currículo de uma família política; eles representam uma erosão sistemática das instituições democráticas. Ao se alinharem com potências estrangeiras – como os EUA sob Trump, que recentemente impuseram sanções a figuras judiciais brasileiras em retaliação – os Bolsonaros arriscam comprometer a independência do Brasil. Castro acerta ao questionar se o país se curvaria a uma “potência estrangeira”, e os fatos mostram que isso já pode estar acontecendo: buscas judiciais e revogações de vistos por Washington indicam uma interferência internacional que beneficia os acusados. A gravidade reside no fato de que essa hipocrisia não afeta apenas os envolvidos; ela polariza a sociedade, enfraquece o Judiciário e alimenta narrativas populistas que, como visto em protestos recentes, mascaram corrupção como luta contra o “sistema”.
Em um momento em que o Brasil luta para consolidar sua democracia pós-ditadura, permitir que figuras como os Bolsonaros usem “Deus, pátria e família” como escudo para impunidade é perigoso. Castro nos lembra que esses valores, quando manipulados, servem para “pintar um fútil” – ou seja, iludir os tolos. A sociedade brasileira precisa despertar para essa realidade: a verdadeira pátria exige accountability, a família genuína promove ética, e Deus, se invocado, não endossa corrupção. Sem uma resposta firme das instituições, o risco é o de um retrocesso irreversível, onde o poder pessoal suplanta o bem comum. É hora de os “palermas” abrirem os olhos – antes que seja tarde demais.




