
Por Padre Carlos
Em um cenário político que muitas vezes parece um tabuleiro de xadrez imprevisível, a Bahia nos presenteia com mais uma jogada intrigante. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quinta-feira, 22 de agosto de 2025, traz números que, à primeira vista, soam como um paradoxo digno de análise profunda. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) exibe uma aprovação robusta de 59% em sua gestão — um patamar que qualquer líder invejaria. No entanto, na simulação para a eleição de 2026, ele aparece sete pontos atrás de ACM Neto (União Brasil), com 34% contra 41% das intenções de voto. Como é possível que um governo bem avaliado não se traduza em apoio eleitoral imediato? A resposta reside nas sutilezas da alma do eleitor, onde o reconhecimento do passado não necessariamente garante o futuro.
A política, meus caros leitores, é repleta de ironias que transcendem planilhas e estatísticas. A aprovação de uma gestão não é um cheque em branco para a reeleição; é, no máximo, um atestado de competência momentânea. O eleitor pode aplaudir as entregas — obras, programas sociais, estabilidade econômica — mas, ao mesmo tempo, ansiar por uma renovação no poder. Essa dissonância não é novidade na história brasileira. Confesso que já assisti a esse enredo de perto, em episódios que moldaram minha visão sobre o imprevisível humor popular. Lembro-me vividamente de 2016, em Vitória da Conquista, onde um prefeito com aprovação estratosférica pavimentava, em teoria, o caminho para seu sucessor. A máquina administrativa rodava a todo vapor, os números sorriam, mas o eleitorado, exausto após duas décadas de continuidade, optou pela mudança. O resultado? Uma derrota surpreendente, mas perfeitamente explicável: quando o desejo de alternância ganha raízes, nem a força institucional consegue conter a onda.
Na Bahia de hoje, o panorama é similarmente estável, mas com rachaduras sutis. A aprovação de Jerônimo oscila pouco ao longo do tempo — 54% em dezembro de 2024, 61% em fevereiro de 2025 e agora os 59% atuais —, sinalizando uma administração sem grandes turbulências ou escândalos que abalem a confiança. Contudo, o dado mais revelador não está na aprovação isolada, mas no empate técnico sobre a reeleição: 48% dos baianos querem que o governador continue por mais um mandato, enquanto exatos 48% rejeitam essa ideia. Esse equilíbrio precário expõe um ponto cego para o Palácio de Ondina: o eleitor reconhece o que foi realizado, mas hesita em estender o ciclo petista, que já domina o estado há duas décadas.
Adicione a isso um contingente significativo de 18% de indecisos, brancos e nulos — um eleitorado flutuante que, em contextos de fadiga partidária, costuma inclinar-se para narrativas de renovação. É precisamente nesse vácuo que ACM Neto constrói sua vantagem inicial. Posicionando-se como a encarnação da alternância, Neto capitaliza o cansaço com a hegemonia petista, enquanto Jerônimo carrega o peso da continuidade. Não se trata de falhas gritantes na gestão atual, mas de uma percepção difusa de que é hora de “virar a página”, como ouvi de tantos eleitores em conversas informais.
O governador, é claro, não está derrotado. Longe disso: dentro da margem de erro da pesquisa (estimada em cerca de 3 pontos percentuais), há um empate técnico que mantém o jogo aberto. Jerônimo tem tempo e recursos para reverter o quadro, convertendo sua aprovação administrativa em um projeto de futuro convincente. O desafio não é apenas listar conquistas passadas, mas demonstrar inovação — romper com a imagem de “mais do mesmo” e provar que ainda há fôlego para transformações. Investimentos em áreas como educação, saúde e infraestrutura, aliados a uma comunicação que dialogue com o anseio por mudança, poderiam ser o antídoto.
O maior risco para o PT, no entanto, é a autoconfiança excessiva. Apostar que 59% de aprovação basta para selar a vitória seria um erro crasso, ignorando lições históricas. O eleitor baiano pode estar sussurrando: “Eu reconheço o bom trabalho, mas quero algo novo”. Se essa melodia se amplificar até 2026, nem o mais sólido balanço administrativo evitará um desfecho amargo. A lição de Conquista em 2016 ressoa como um alerta: quando o povo decide pela alternância, não há máquina pública, narrativa elaborada ou estatística otimista que reverta o curso. O vento da mudança sopra silencioso, mas inexorável. Cabe ao governo decifrá-lo a tempo — ou arriscar ser arrastado pela maré da história.
Para ilustrar essa análise, vejamos os principais gráficos da pesquisa Genial/Quaest de agosto de 2025, que reforçam os pontos discutidos:
Intenção de Voto (Simulação para Governador em 2026):
| Candidato | Porcentagem |
|---|---|
| ACM Neto (União) | 41% |
| Jerônimo Rodrigues (PT) | 34% |
| Indecisos/Brancos/Nulos | 18% |
| Outros | 7% |
(Essa distribuição destaca a vantagem inicial de Neto, mas com espaço para volatilidade.)
Aprovação x Reprovação do Governo Jerônimo:
| Avaliação | Porcentagem |
|---|---|
| Aprovação | 59% |
| Reprovação | 31% |
| Não sabe/Não opinou | 10% |
(Uma aprovação sólida, mas com reprovação significativa que pode alimentar o desejo de mudança.)
Série Histórica de Aprovação:
| Período | Aprovação |
|---|---|
| Dezembro/2024 | 54% |
| Fevereiro/2025 | 61% |
| Agosto/2025 | 59% |
(Essa estabilidade sugere consistência, mas não crescimento, o que pode indicar platô.)
Opinião sobre Reeleição de Jerônimo:
| Opinião | Porcentagem |
|---|---|
| Quer que continue | 48% |
| Não quer que continue | 48% |
| Não sabe/Não opinou | 4% |
(O empate perfeito reflete a divisão que pode pender para qualquer lado.)
Esses dados, extraídos diretamente da pesquisa, adicionam peso visual à reflexão: a Bahia está em um limbo eleitoral, onde o passado é valorizado, mas o futuro inspira dúvida. Que os jogadores políticos leiam nas entrelinhas — ou corram o risco de serem surpreendidos.




