Política e Resenha

Um ataque aos EUA contra a Venezuela é um ataque a toda a América Latina

 

 

Por Padre Carlos

 

A hipótese de uma ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela não pode ser analisada apenas sob o prisma das relações bilaterais entre Washington e Caracas. Mais do que uma violação à soberania venezuelana, seria uma afronta direta a todo o continente latino-americano, ao seu povo e à sua história de lutas pela autodeterminação.

Desde a independência das nações latino-americanas, um princípio se consolidou como pilar da convivência regional: o direito dos povos de decidirem os seus próprios destinos sem a tutela de potências estrangeiras. O “princípio da não intervenção”, consagrado em diversos fóruns internacionais e na própria Carta da ONU, não é uma abstração diplomática; é a expressão da dura experiência de um continente marcado por intervenções externas, golpes patrocinados e tentativas de controle político, econômico e militar.

Um ataque militar contra a Venezuela, seja sob qualquer justificativa, abriria uma ferida profunda na soberania coletiva da América Latina. O recado seria claro: se um país vizinho pode ser bombardeado e invadido sem que sua autodeterminação seja respeitada, então nenhum Estado da região está seguro. A geografia compartilhada e a memória comum nos colocam no mesmo destino. O que acontece em Caracas reverbera em Bogotá, Buenos Aires, Santiago, Brasília, Cidade do México e Havana.

É preciso destacar que o uso da força pelos EUA teria também uma dimensão simbólica devastadora. Seria o retorno mais explícito da Doutrina Monroe — “América para os americanos” — no seu sentido mais cru: América Latina como quintal geopolítico de Washington. Uma regressão histórica que transformaria as relações internacionais em nosso continente em um jogo de submissão e resistência.

Mais do que um ato contra o governo venezuelano, uma intervenção militar atingiria a dignidade dos povos latino-americanos, que lutaram séculos para romper com o jugo colonial. A agressão a um país da região é a agressão a todos nós, pois a América Latina é um espaço de destino compartilhado, de cultura entrelaçada e de soberanias que só fazem sentido quando vistas em conjunto.

Por isso, um eventual ataque deve ser denunciado não apenas por Caracas, mas por todas as capitais latino-americanas. Silenciar diante de uma agressão dessa magnitude seria aceitar a lógica da submissão e da tutela estrangeira. Nossa resposta precisa reafirmar que a paz, a integração e o respeito mútuo são valores inegociáveis.

Se a América Latina deseja se afirmar no cenário global como um bloco de dignidade e voz própria, não pode permitir que a soberania de um de seus países seja violada sem reação. Um ataque militar dos Estados Unidos contra a Venezuela não seria um episódio isolado: seria um golpe contra todo o nosso continente e contra a própria ideia de liberdade que nos une.