Política e Resenha

A Dor que Não se Cala: Justiça para Riquelmy e o Grito contra a Impunidade no Trânsito

 

 

Por Padre Carlos

Em uma sociedade que se diz civilizada, nada é mais revoltante do que ver a vida de uma criança ceifada pela irresponsabilidade alheia, apenas para que o responsável seja liberado para “responder em liberdade”. O caso do pequeno Riquelmy Novais Cerqueira, de apenas 1 ano e 5 meses, atropelado e morto em Vitória da Conquista, na Bahia, no dia 28 de julho de 2025, não é apenas uma tragédia isolada – é um sintoma alarmante de um sistema que falha em proteger os mais vulneráveis e pune com luvas de pelica os que violam as leis do trânsito. Um mês após o fatídico acidente, familiares e amigos tomaram as ruas do bairro Jatobá em protesto, carregando cartazes com o rosto inocente do bebê e clamando por justiça. “Eu não estou aguentando não, eu quero meu nenê. Oh, meu Deus. Me ajuda, meu Deus”, desabafou a mãe, em um vídeo comovente que circula nas redes, entre soluços que ecoam a dor de uma perda irreparável. Como podemos, como nação, ignorar esse grito?

Vamos aos fatos, frios e inescapáveis. Riquelmy brincava na porta de casa, jogando bola com a família – uma cena cotidiana em tantos bairros periféricos do Brasil, onde as ruas servem de playground por falta de espaços adequados. Um carro em alta velocidade surgiu, arremessando o menino a cerca de 30 metros. O condutor, um jovem de 24 anos, fugiu sem prestar socorro, um ato de covardia que agrava o crime. Horas depois, ele se apresentou à polícia, foi autuado por homicídio culposo e encaminhado ao Conjunto Penal. Mas, em uma audiência de custódia no dia 30 de julho, foi solto para responder em liberdade, graças à ausência de antecedentes criminais e à entrega voluntária. Essa decisão, embora legal, expõe as entranhas de um sistema judiciário que prioriza formalidades sobre a essência da justiça. Como explicar à mãe de Riquelmy que o homem responsável pela morte de seu filho anda livre, enquanto ela carrega o peso eterno da ausência?

Os cartazes do protesto de 22 de agosto falam por si: “Queremos Justiça”, “A lei pode até falhar, mas a justiça de Deus não”, “Dignidade não é escandalosa no tratamento da vida de Riquelmy”, e um apelo prático: “Velocidade máxima dentro dos becos: 30 km/h. Não transite a vida. Puna o motorista”. Esses gritos nas ruas não são mera catarse emocional; são um chamado à ação. Em bairros como Jatobá, onde crianças brincam nas calçadas por falta de parques ou áreas seguras, o trânsito descontrolado transforma vias residenciais em pistas de morte. O motorista alegou ter visto apenas um adulto, não a criança, e que acelerava para devolver o carro emprestado a tempo. Mas desculpas não ressuscitam vidas. Quantas vezes veremos motoristas imprudentes escaparem com uma mera advertência, enquanto famílias destroçadas clamam por accountability real?

Aqui reside o cerne da minha indignação: o Brasil tem um problema crônico de impunidade no trânsito. Somos o país das leis brandas, onde homicídios culposos – mesmo os mais chocantes – raramente resultam em punições exemplares. Relatórios da Organização Mundial da Saúde apontam que acidentes de trânsito matam mais de 40 mil brasileiros por ano, muitos em áreas urbanas por excesso de velocidade. Em Vitória da Conquista, uma cidade de porte médio no sudoeste baiano, casos como esse não são raros, mas a resposta pública costuma ser morna até que uma tragédia como a de Riquelmy desperte a comoção coletiva. Vereadores locais, como Ricardo Gordo, já lamentaram o ocorrido e propõem medidas, mas propostas no papel não bastam – precisamos de lombadas, sinalização reforçada e campanhas educativas que atinjam os motoristas antes que o irreparável aconteça.

Não é politicamente incorreto afirmar que soltar um motorista que fugiu após matar uma criança envia uma mensagem perigosa: a vida humana, especialmente a de uma criança pobre em um bairro periférico, vale pouco perante a lei. Essa percepção alimenta a revolta vista no protesto, onde o grupo marchou gritando por celeridade na investigação. Se o sistema judiciário falha, como indicam os cartazes invocando a “justiça de Deus”, é porque o humano está corrompido por burocracias que protegem os errados. Precisamos reformar o Código de Trânsito Brasileiro para endurecer penas em casos envolvendo crianças, impondo prisões preventivas mais rigorosas e multas que doam no bolso dos infratores.

O pai de Riquelmy, Leandro Cerqueira, descreveu o horror: “Eu estava dentro de casa, escutei o barulho e fui pegar meu filho já morto. Levei ele morto para o hospital.” Essas palavras deveriam ecoar nos tribunais, nas câmaras legislativas e em cada consciência brasileira. Riquelmy não foi vítima apenas de um motorista imprudente; foi vítima de uma sociedade que tolera o intolerável. Que o protesto de Vitória da Conquista seja o catalisador para mudanças reais – por sinalização adequada, por educação no trânsito e, acima de tudo, por uma justiça que não falhe quando mais se precisa dela. Caso contrário, quantos “nenês” mais teremos que enterrar antes de acordarmos?

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