Política e Resenha

Eternidade no Peito

 

 

 

Nosso tempo foi inteiro. Não se quebrou em metades, não conheceu atalhos nem desvios: foi um rio caudaloso correndo sem pedir licença, inundando cada margem da juventude. E que juventude! Esse território indomável em que acreditamos que o amor é suficiente para sustentar o mundo.

 

Foram os melhores anos da minha vida, porque foram anos teus. Tudo o que em mim havia — riso, medo, sonho ou silêncio — encontrava repouso no teu olhar. Até a quietude entre nós tinha música: a canção secreta de quem sabe que não precisa dizer para ser compreendido. Caminhávamos como descobridores do tempo, fundando cada instante com a coragem e a inocência dos que se sabem vivos.

 

Há décadas caminho só. Mas não sozinho. Carrego-te no peito como quem guarda um relicário invisível, um lume que não se apaga, por mais que os ventos dos dias tentem soprar. Viraste eternidade dentro de mim, ocupando o espaço onde já não cabem as ausências.

 

E isso ninguém me tira. Nem os anos, que passam como marés, nem o esquecimento, que insiste em devorar quase tudo. O que fomos é raiz: finca-se fundo, permanece, floresce em silêncio.

 

Fecho os olhos e ainda escuto teu riso, ainda sinto tua mão na minha. E compreendo, então, que o amor verdadeiro não se despede. Apenas muda de forma, aprende a habitar a memória e ali permanece — vivo, indomável, eterno.