Política e Resenha

ARTIGO – O País da Impunidade e o Sangue das Mulheres (Padre Carlos)

 

 

O Brasil ocupa, com uma vergonha criminosa, o trono de campeão mundial em feminicídio. Esse título maldito não é fruto do acaso: ele nasce da forma covarde como o país trata os agressores de mulheres. A cada dia, assistimos a cenas de horror em que mulheres são violentadas, mutiladas e mortas, enquanto seus algozes desfilam impunes, protegidos pelo machismo estrutural e por um sistema de justiça complacente.

O caso de Dado Dolabella é a síntese desse Brasil doente. Um ator de novelas, com rosto bonito e currículo de agressões. Bateu, bateu, bateu até romper o tímpano da própria prima e ex-namorada. O resultado? Dois anos e quatro meses em regime aberto. Regime aberto! O sujeito agride, destrói a saúde física e emocional de uma mulher, e o Estado o presenteia com uma pena que mais parece piada de mau gosto.

Mas não é só isso. Antes, já havia sido condenado a pagar indenização a uma camareira de 80 anos, que teve o braço quebrado e a vida arruinada após uma agressão covarde. O resultado? Não pagou. A dívida se arrasta na Justiça. A vítima? Invalidez e esquecimento. O agressor? Continua em podcasts, palcos e tapetes vermelhos, ostentando a vida que lhe foi concedida pela conivência de um país que naturaliza a violência contra as mulheres.

Enquanto isso, as estatísticas gritam: a cada sete horas uma mulher é assassinada no Brasil. E não são apenas números — são mães, filhas, irmãs, amigas, arrancadas brutalmente do convívio social. Cada uma delas carrega a marca de uma sociedade que escolheu proteger o agressor e expor a vítima.

O discurso de que “é assunto pessoal”, como tentou justificar Vanessa Camargo, é uma afronta. Não, não é pessoal! É crime. Crime contra a vida, contra a dignidade, contra a humanidade. E crime deve ser tratado como crime. O problema é que neste país, o agressor é visto como “ator”, “cantor”, “celebridade”. A mulher agredida? Reduzida ao silêncio.

É por isso que o Brasil lidera esse ranking de horror. Porque aqui, o machismo é institucionalizado. Porque aqui, um agressor reincidente pode romper um tímpano, quebrar um braço, arruinar vidas e ainda ser tratado como artista. Porque aqui, a lei parece escrita para proteger os violentos e não as violentadas.

A indignação não pode ser só minha. Ela precisa ser coletiva. Ou o país se levanta contra essa cultura da violência e da impunidade, ou continuará cavando covas para as suas mulheres.

Dado Dolabella não é exceção. Ele é o retrato de um Brasil doente, que precisa ser passado a limpo. Ou paramos de romantizar agressores, ou aceitaremos para sempre viver no país da vergonha, da impunidade e do sangue das mulheres.