Sessenta mortes violentas. Sessenta vidas ceifadas. Sessenta famílias destroçadas. Em apenas oito meses de 2025, Jequié se transformou num verdadeiro campo de batalha, onde o Estado parece ter perdido completamente o controle da situação. E o que temos como resposta? Números frios apresentados em inaugurações políticas, como se fossem meros dados de um relatório burocrático.
A Banalização do Horror
É revoltante como a barbárie foi normalizada em nossa sociedade. Quando um delegado anuncia que “40% dos casos foram elucidados” como se fosse uma conquista, esquece-se de mencionar que isso significa que 60% dos assassinatos – ou seja, 36 famílias – ainda clamam por justiça. Esquece-se de dizer que por trás de cada percentual existe uma mãe que não verá mais seu filho voltar para casa, um pai que perdeu sua razão de viver, crianças que crescerão órfãs.
Como podemos aceitar passivamente que uma cidade de aproximadamente 150 mil habitantes registre uma morte violenta a cada quatro dias? Como podemos tolerar que facções criminosas tenham mais poder territorial do que o próprio Estado? A resposta é simples: não podemos. Não devemos. Não vamos.
O Estado Ausente e a Sociedade Omissa
O que presenciamos em Jequié é reflexo de décadas de negligência do poder público. Enquanto autoridades se digladiam em disputas políticas mesquinhas, o crime organizado avança, consolida territórios e impõe suas próprias leis. O tráfico de drogas não surgiu do nada – ele prosperou num vácuo deixado pela ausência de políticas públicas efetivas, pela falta de oportunidades para jovens e pela omissão histórica do Estado.
A criação tardia de uma Delegacia de Tóxicos e de um Núcleo de Homicídios é uma confissão pública de incompetência. Por que essas estruturas não existiam antes? Por que foi preciso chegar a esse nível de calamidade para que medidas básicas fossem tomadas? E por que, mesmo com essas unidades, continuamos assistindo ao derramamento de sangue nas ruas?
A Conta que Não Fecha
Três suspeitos mortos em confronto com a polícia. Vinte e um presos. Operações com nomes pomposos como “Ice Blue”. Mas as mortes continuam. Os números não mentem: a estratégia atual não está funcionando. Não basta prender; é preciso prevenir. Não basta reagir; é preciso antecipar. Não basta combater o crime; é preciso combater suas causas.
Onde estão os investimentos em educação de qualidade? Onde estão os programas de inserção social para jovens em situação de risco? Onde estão as políticas de geração de emprego e renda? Onde está o Estado que deveria proteger seus cidadãos, não apenas contar seus mortos?
Um Feminicídio Entre as Estatísticas
Entre os 60 casos, há um feminicídio. Uma mulher morta pelo simples fato de ser mulher, vítima de uma sociedade que ainda não aprendeu a valorizar e proteger suas filhas, esposas, mães e irmãs. Esse caso “esclarecido” representa mais do que uma investigação bem-sucedida – representa a falha coletiva de uma sociedade que permite que a violência de gênero continue ceifando vidas.
O Preço da Omissão
Cada morte em Jequié é também nossa responsabilidade. Cada vez que normalizamos a violência, cada vez que tratamos assassinatos como meros dados estatísticos, cada vez que elegemos representantes incompetentes ou omissos, estamos contribuindo para essa tragédia.
Não podemos mais aceitar que crianças cresçam em territórios dominados pelo crime. Não podemos mais tolerar que mães tenham medo de deixar seus filhos saírem de casa. Não podemos mais permitir que uma cidade inteira viva sob o jugo do terror.
Basta de Discursos, Queremos Ação
Chega de inaugurações cerimoniais enquanto o povo morre. Chega de estatísticas maquiadas para mostrar eficiência onde há apenas incompetência. Chega de promessas vazias de políticos que tratam a segurança pública como moeda de troca eleitoral.
Jequié precisa de um plano emergencial de segurança. Precisa de investimento em inteligência policial. Precisa de políticas sociais efetivas. Precisa de um Estado presente, não apenas reativo. Precisa de justiça rápida e exemplar. Precisa que seus representantes parem de fazer política com a dor alheia.
O Despertar da Indignação
Sessenta mortes violentas não são apenas números – são 60 gritos por justiça que ecoam pelas ruas de Jequié e chegam aos nossos ouvidos como um alerta ensurdecedor. É hora de transformar nossa indignação em ação, nossa revolta em cobrança, nosso lamento em luta.
O sangue derramado nas ruas de Jequié mancha as mãos de todos nós que permanecemos calados diante desta barbárie. Não podemos mais fechar os olhos. Não podemos mais baixar a cabeça. Não podemos mais aceitar que a morte seja a única certeza numa cidade que deveria ser berço de vida e esperança.
A hora é agora. A responsabilidade é nossa. A mudança é urgente. Jequié não pode esperar mais.





