(Padre Carlos)
A fala de ACM Neto sobre o episódio envolvendo o prefeito de Luiz Eduardo Magalhães, Júnior Marabá, traz à tona não apenas uma narrativa pessoal, mas uma lição prática sobre a ingratidão e a volatilidade da política baiana. Neto faz questão de deixar registrado, com a sobriedade de quem tenta não se alongar na polêmica, mas também com a firmeza de quem não aceita ser desmoralizado, que foi ele o responsável por abrir as portas partidárias e viabilizar o caminho do prefeito em suas duas disputas.
O relato é minucioso: em 2020, quando Marabá ainda não tinha mandato e enfrentava o peso da máquina do Estado e do PT, foi Neto quem cedeu o partido e o apoiou, garantindo sua vitória. Meses depois, o mesmo prefeito deixa o partido sem sequer prestar contas — um gesto que, no mínimo, revela desconsideração política. Já em 2024, no cenário da reeleição, Neto novamente intervém, pacifica a crise com o vice-prefeito e entrega o União Brasil nas mãos de Júnior. Além disso, não hesita em declarar que colocou recursos do fundo eleitoral à disposição do aliado, reforçando sua participação direta na campanha.
O ponto mais delicado da versão de Neto está no desfecho: depois de tantas demonstrações de apoio, o prefeito não apenas se distancia, mas se aproxima exatamente do grupo político que, em duas ocasiões, tentou destruí-lo. A aproximação com o PT, vista por ACM Neto como contraditória e carregada de interesses, desnuda uma lógica pragmática que alimenta a descrença da população na política: as alianças são feitas e desfeitas sem coerência, apenas em nome da sobrevivência eleitoral.
ACM Neto, com sua narrativa, tenta construir um contraponto: ele se coloca como líder que tem palavra, que cumpre compromissos e que oferece respaldo concreto aos seus aliados. Ao lembrar quem esteve ao lado de Marabá nos momentos decisivos, Neto não apenas se defende das críticas recentes, mas também reafirma seu papel de fiador de lideranças no interior da Bahia.
A versão apresentada não é apenas um registro de memória; é também um movimento estratégico. Neto sabe que precisa manter viva sua imagem de liderança confiável e republicana diante da base do União Brasil e do eleitorado baiano. Ao expor a “incoerência” do prefeito de Luiz Eduardo, ele tenta marcar um contraste: de um lado, a lealdade e a constância; do outro, a conveniência e a fragilidade das alianças que se dobram ao poder.
No fundo, o episódio mostra a essência da disputa política atual: quem será capaz de consolidar uma rede de fidelidades em um ambiente onde a palavra vale cada vez menos? ACM Neto joga suas cartas mostrando que sua força não está apenas em números, mas também em memória.





