Política e Resenha

Tarcísio e a Escolha da Ruptura

 

 

 

 

Quando um governador do porte de São Paulo, com ambições presidenciais declaradas, afirma que “não confia na Justiça”, ele não está apenas emitindo uma opinião pessoal. Está atacando o coração da República. Está escolhendo, deliberadamente, o caminho da instabilidade, da suspeita e da corrosão institucional.

Tarcísio de Freitas não é um cidadão comum, é chefe do Estado mais rico do país e pré-candidato a presidente. Suas palavras têm peso político, social e simbólico. Ao adotar a retórica bolsonarista contra o Supremo Tribunal Federal, ele repete a fórmula que já empurrou o Brasil à beira de um golpe em 2022. Pior: demonstra que não aprendeu nada com o caos recente e que está disposto a reacender as brasas da ruptura para agradar à militância mais radical.

Essa postura nada tem de republicana. É oportunismo puro. Em vez de reforçar a confiança nas instituições, Tarcísio prefere fragilizá-las; em vez de elevar o debate, aposta no rebaixamento; em vez de agir como estadista, comporta-se como cabo eleitoral do ressentimento. Seu cálculo é simples: manter vivo o discurso antidemocrático que mobiliza parte do eleitorado bolsonarista. Mas o preço desse jogo é altíssimo: compromete a credibilidade do Estado de Direito.

Um governante que despreza a Justiça não governa, ameaça. E um político que ambiciona o Planalto enquanto mina a legitimidade das instituições não se apresenta como alternativa democrática, mas como risco real de retrocesso. O discurso de Tarcísio não é desabafo, é projeto. Projeto de poder que enxerga a democracia como obstáculo, não como valor.

São Paulo, que deveria liderar pelo exemplo, hoje tem um governador que prefere jogar gasolina sobre as brasas do radicalismo. O país precisa estar atento. Porque as escolhas de Tarcísio não são apenas dele: se não forem denunciadas e combatidas, podem se transformar nas escolhas impostas a todos nós.

Não há meio-termo: ou se governa dentro da Constituição, respeitando o Judiciário e fortalecendo as instituições, ou se caminha para a mesma lógica que tentou rasgar a democracia em 8 de janeiro. Ao desprezar a Justiça, Tarcísio deixa claro de que lado pretende estar. E não é do lado da República.

Padre Carlos