Política e Resenha

Resgatando a Memória de um Imprescindível: Péricles de Souza e as Lutas que Não Morrem

 

 

Por Padre Carlos

 

“Há aqueles que lutam um dia, e são bons; há aqueles que lutam um ano, e são melhores; há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; mas há os que lutam toda a vida: esses são os imprescindíveis.” (Bertolt Brecht)

Quando recebi a nota do PCdoB Bahia anunciando o falecimento de Péricles de Souza, em pleno 5 de setembro de 2025, uma avalanche de memórias me invadiu. Fazia muitos anos que não o via – décadas, na verdade, desde aqueles tempos em que os anos de chumbo nos unia em sussurros e olhares cúmplices. Eu, um jovem militante da esquerda brasileira, formado na efervescência do movimento estudantil, via em Péricles não apenas um dirigente, mas um farol de resistência. Hoje, como articulista que ainda carrega as cicatrizes e as esperanças daquela geração, sinto o dever de resgatar sua memória, não como obituário frio, mas como um grito de continuidade. Péricles não partiu; ele se multiplica em cada um de nós que ainda sonha com um Brasil socialista.

Nascido em 1943, em Vitória da Conquista, no coração do sertão baiano, Péricles de Souza encarnava o que havia de mais vigoroso na juventude brasileira dos anos 1960. Aquela geração que cresceu sob o peso do Golpe de 1964, quando o regime militar sufocou liberdades e instaurou os “anos de chumbo” – um eufemismo para torturas, desaparecimentos e censura implacável. Lembro-me vividamente como ele ajudava o movimento estudantil, Péricles se destacava. Ele não era o tipo que discursava por vaidade; sua fala era precisa, inflamada pela urgência da revolução. Integrante da Ação Popular (AP), uma organização de esquerda católica que mesclava marxismo e teologia da libertação, ele enfrentou o regime com uma coragem que inspirava os mais jovens como eu. Naqueles dias, ser estudante significava arriscar a vida em assembleias clandestinas, panfletagens noturnas e marchas que terminavam em gás lacrimogêneo e prisões arbitrárias. Péricles, com sua visão estratégica, nos ensinava que a luta não era só contra a ditadura, mas por uma sociedade sem explorados – um socialismo tropical, enraizado na realidade brasileira.

A tragédia da Chacina da Lapa, em 1976, marcou um ponto de virada não só para o PCdoB, mas para toda a esquerda. Naquele dezembro sangrento, em São Paulo, o regime assassinou líderes como Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, decapitando o partido. Péricles, já então um quadro experiente, assumiu o papel de reconstrutor no Nordeste. Eu o reencontrei nessa fase, em reuniões precárias em Salvador, onde o medo da delação pairava como uma sombra, eu já pensava deixar o partido com o racha. Mesmo assim, ele nos orientava com serenidade: “A clandestinidade não nos diminui; ela nos forja”. Sua contribuição para a reorganização do PCdoB foi pivotal, especialmente na Bahia, onde ajudou a tecer alianças com sindicatos, movimentos camponeses e a juventude universitária. Após a anistia de 1979, quando muitos hesitavam em sair das sombras, Péricles retomou a militância pública com vigor, tornando-se presidente estadual e dirigente nacional. Ele entendia que a redemocratização não era o fim da luta, mas o início de uma nova etapa – contra o neoliberalismo incipiente, as desigualdades raciais e a dominação imperialista.

O que mais me tocava em Péricles era sua capacidade de unir o rigor ideológico à ternura humana. Em uma era em que a esquerda brasileira se fragmentava entre dogmatismos e oportunismos, ele era o mediador, o ouvinte. Lembro de uma conversa particular, anos após a ditadura, quando eu, já desencantado com algumas derrotas eleitorais, questionava o caminho. “Companheiro”, disse ele com aquele sotaque baiano acolhedor, “o socialismo não é uma receita pronta; é a vida do povo em movimento”. Sua dedicação aos movimentos sociais – dos sem-terra aos operários das fábricas de Salvador – o tornava uma referência para a juventude. Nos anos 1980 e 1990, quando a geração pós-ditadura lidava com o desencanto da Nova República, Péricles incentivava a formação de quadros jovens, promovendo debates sobre feminismo, ecologia e antirracismo dentro do PCdoB. Ele via na juventude não meros recrutas, mas os protagonistas da transformação.

Mas Péricles não era só o militante; era o homem integral. Marido e pai dedicado, ele equilibrava a vida pública com a privada, algo raro em tempos de total entrega à causa. Sua generosidade se estendia aos amigos e companheiros – quantas vezes não nos socorreu em momentos de dúvida ou perseguição? Seu título de Presidente de Honra do PCdoB Bahia, conquistado por décadas de coerência, reflete não uma honraria vazia, mas o reconhecimento de um legado vivo. Em um Brasil que, em 2025, ainda luta contra retrocessos autoritários, desigualdades abissais e crises ambientais, a memória de Péricles nos recorda que a esquerda não pode se render. Ele nos ensinou que a firmeza de princípios deve andar de mãos dadas com a solidariedade, e que a luta pela liberdade e justiça social é uma maratona, não uma sprint.

Hoje, ao resgatar essas memórias, sinto uma dor misturada à gratidão. Péricles de Souza não foi apenas um companheiro que não via há anos; ele é o espelho de uma geração que resistiu aos anos de chumbo para plantar sementes de esperança. Seu legado pulsa no PCdoB, na esquerda brasileira e no povo baiano, inspirando os jovens de agora – aqueles que enfrentam o bolsonarismo residual, a precarização do trabalho e as fake news. À família, aos amigos e à militância, minha solidariedade fraterna. Péricles segue entre nós, em cada bandeira erguida, em cada sonho que insiste em florescer. Que sua vida nos impulsione a ser, também, imprescindíveis.