
(Padre Carlos)
Quando o nazismo levou milhões de judeus às câmaras de gás, o mundo inteiro se calou. As locomotivas cruzavam a Europa, os trens lotados de inocentes seguiam para os campos de extermínio, e a humanidade se limitava a assistir, indiferente, até que o horror se tornasse insuportável. Depois, todos se cobriram de vergonha.
Hoje, vivemos o reverso da história. O poder do Estado de Israel, comandado por uma elite política e militar, promove um massacre contra o povo palestino. Crianças, mulheres, civis indefesos: todos são vítimas da máquina de guerra. O que se vê é limpeza étnica, é genocídio. E, mais uma vez, o mundo se cala.
Não posso acreditar que o povo judeu, que carregou na pele as marcas de Auschwitz, Treblinka e Dachau, esteja integralmente de acordo com essa barbárie. Há judeus espalhados pelo mundo, inclusive dentro de Israel, que erguem suas vozes contra essa tragédia. Mas os que detêm o poder insistem em repetir a lógica do opressor.
E nós? Nós, cidadãos do mundo, assistimos à morte em tempo real pelas telas dos celulares. Fechamos os olhos, mudamos de canal, clicamos em outra janela. Somos cúmplices pela indiferença. O silêncio é a mais cruel das alianças.
A ironia da história fere a consciência: aqueles que foram vítimas de um dos maiores crimes da humanidade agora são retratados, por uma elite armada e sem piedade, como autores de uma nova chacina. Não se trata de negar a dor judaica, mas de denunciar que nenhuma dor dá salvo-conduto para transformar outro povo em alvo de extermínio.
O mundo não pode se calar novamente. A vergonha de ontem não pode se repetir hoje.




