Política e Resenha

Crônica – O litoral da saudade

 

 

É como se o vento tivesse levado você. Não de forma suave, mas como quem arranca um pedaço do mundo e deixa o espaço aberto, sem promessa de volta. As perdas, seja por uma separação em vida ou pela morte, são assim: chegam sem pedir licença, mudam a ordem das coisas, colocam cada memória em estado de espera.

Ainda acordo pensando que tudo pode ser como antes, que basta abrir a porta para encontrar o sorriso que me sustentava. Mas logo percebo que o vento entra sozinho, e a casa ecoa uma ausência que não se desfaz.

Há dias em que me pergunto se foi justo. Em outros, apenas me deixo levar pela lembrança, como quem encosta os pés no mar e espera que a onda devolva o que tirou. Sei que não vai devolver. Mas, de algum modo, continuo esperando.

E talvez seja isso o que resta: aprender a amar no silêncio. Sentir que, mesmo invisível, você continua em mim. Que o vento que me atravessa é o mesmo que leva meu afeto até onde você está. No litoral da saudade, a vida segue — partida, mas ainda vida.