(Padre Carlos)
A política brasileira vive, mais uma vez, um momento de tensão em torno da palavra “anistia”. Desde a redemocratização, o termo carrega tanto o peso da reconciliação quanto a sombra da impunidade. Agora, sob o comando da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, o baiano Otto Alencar (PSD) assumiu um papel que incomoda o bolsonarismo: ser a barreira mais visível contra uma proposta ampla de perdão aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
Em entrevista ao portal Metrópoles, Otto foi direto: não pautará nenhuma proposta de anistia “ampla, geral e irrestrita”, por considerá-la inconstitucional. É uma fala firme que o coloca na contramão da pressão da direita radical, que tenta empurrar goela abaixo um “esquecimento institucional” dos crimes cometidos contra a democracia.
Mas Otto não se limita a dizer “não”. Ele apoia uma articulação mais pragmática, liderada por Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que propõe um caminho intermediário: reduzir penas para réus de menor relevância, preservando punições duras para articuladores e financiadores do golpismo. Essa costura, que tem a digital do senador baiano, não elimina a responsabilização, mas abre espaço para distinguir quem foi mero seguidor manipulado e quem, de fato, atentou contra o Estado democrático de Direito.
Essa postura revela duas faces da política de Otto Alencar. A primeira, institucional: como presidente da CCJ, ele defende o equilíbrio e a legalidade, rejeitando a ideia de que parlamentares possam ser blindados contra investigações — como sugere uma proposta em tramitação na Câmara. O próprio Otto classificou essa PEC como um “absurdo” e uma “falta de cerimônia de respeito com o povo brasileiro”. A segunda, pragmática: ele sabe que, em Brasília, nada se resolve apenas com trincheiras; é preciso negociar, oferecer alternativas, construir saídas.
Na prática, Otto se transformou na pedra mais pesada no caminho da anistia sonhada pelo bolsonarismo. Mais do que isso: consolidou-se como voz de resistência contra qualquer tentativa de institucionalizar privilégios e blindagens a políticos que traíram a confiança popular.
O episódio mostra, com clareza, que a democracia não se defende apenas com discursos, mas com freios concretos ao avanço do arbítrio. Otto, que sempre transitou entre campos distintos da política baiana e nacional, agora se coloca como guardião de uma linha de equilíbrio: punir sem perseguir, perdoar sem apagar o crime.
Se sua posição prevalecer, o Senado poderá dar ao país um recado firme: o Brasil não está disposto a repetir a velha fórmula de impunidade que tanto alimentou crises no passado. E, nesse tabuleiro, Otto Alencar desponta não apenas como um senador de prestígio regional, mas como figura central na disputa entre memória e esquecimento, entre justiça e anistia.





