
(Padre Carlos)
O cenário político brasileiro ganhou mais uma cena digna de um filme de tribunal: o senador Randolfe Rodrigues, em plena CPI do INSS, puxou da gaveta um documento assinado pelo então ministro da Economia, Paulo Guedes, em 2019, e pelo atual senador Rogério Marinho. O papel, mais que uma peça burocrática, se transformou numa bomba política: a comprovação de que o governo Bolsonaro sabia, desde o início, das denúncias de descontos indevidos em aposentadorias e pensões.
O caso envolve um esquema que cresceu assustadoramente durante o bolsonarismo: entidades como a FAETEC e sindicatos que passaram de centenas a centenas de milhares de filiados de um ano para outro. O detalhe é que esses filiados, em muitos casos, sequer sabiam que estavam contribuindo. Era dinheiro arrancado do bolso dos aposentados, sem autorização. E o mais grave: segundo o documento, cabia à vítima provar que havia sido lesada. Um verdadeiro escárnio contra os mais frágeis.
Paulo Guedes, conhecido como o “posto Ipiranga” da economia, respondeu ao requerimento de forma fria e burocrática. Admitiu que havia denúncias, que não tinha números claros, e empurrou a responsabilidade para o próprio aposentado. A lógica era perversa: “se o desconto está errado, que o idoso prove na Justiça”. O governo, ao invés de agir como guardião, assumiu a postura de cúmplice.
Randolfe expôs a contradição: se em 2019 já havia alerta formal, por que nenhuma auditoria foi feita? Por que a Controladoria-Geral da União não atuou? A resposta é simples: porque não havia interesse em mexer na engrenagem que sustentava parte da base política do bolsonarismo.
A fala de Randolfe escancara a diferença entre governos que apenas convivem com a corrupção e aqueles que a enfrentam. Não se trata de “não saber” — os papéis provam que sabiam. A questão é a providência tomada. E, nesse caso, a providência foi virar as costas para o roubo.
Esse episódio deve servir de lição: o combate à corrupção não se dá com slogans, mas com investigações, auditorias e responsabilização. O que vimos foi a institucionalização da omissão. Um governo que se dizia “anticorrupção” preferiu a conveniência da conivência.
Agora, o documento revelado pela CPI não apenas compromete Paulo Guedes e Rogério Marinho, mas desmonta a narrativa bolsonarista de que “no nosso governo não havia corrupção”. Havia, sim, e em escala industrial — contra os mais pobres, contra os idosos, contra os que menos tinham condições de reagir.
A CPI cumpre, assim, seu papel: trazer à luz o que foi enterrado sob a retórica do moralismo seletivo. O Brasil precisa encarar de frente que corrupção não é só roubo de bilhões em estatais — é também o desconto indevido do salário de um aposentado que depende de cada centavo para sobreviver.
E essa, convenhamos, é a forma mais cruel de corrupção.




