Política e Resenha

ARTIGO – Amizade Verdadeira: Entre Gibran, Seminário e Infância

 

(Padre Carlos)

A amizade verdadeira sempre foi cantada pelos poetas como um bem raro e necessário. Khalil Gibran, em seu livro O Profeta, lembra que “o amigo é a resposta às tuas necessidades”. Em tempos de redes sociais, onde muitas conexões são superficiais, essa reflexão é mais atual do que nunca. A amizade não é só companhia, é abrigo da alma, é antídoto contra o vazio digital.

Na minha trajetória, a amizade assumiu rostos diferentes. No seminário, construí laços de fraternidade que marcaram minha juventude. Foram anos de convívio intenso, de partilha de sonhos, de noites em vigília e de risos no refeitório. Amizade de seminário é feita de silêncio e de cumplicidade, daquelas que sobrevivem ao tempo porque nasceram na essência.

Na militância política e social, conheci outro tipo de amigo: o companheiro de luta. Ali, a amizade se testava no fogo das divergências, mas também se fortalecia no ideal coletivo. São amizades que resistem porque foram forjadas no desejo comum de transformação, carregadas de coragem e de esperança.

E, claro, carrego na memória os amigos da infância. As ruas de Salvador guardam minhas primeiras descobertas, os jogos improvisados, os sonhos de menino. Essas amizades de infância são raízes afetivas que permanecem vivas, lembrando que o tempo não apaga o que foi verdadeiro.

Hoje, em um mundo marcado por polarizações e relações frágeis, penso que cultivar a amizade é quase um ato de resistência. Gibran aconselha que “o melhor de vós seja para vosso amigo” – e eu acrescentaria: oferecer o melhor de si, em um tempo de indiferença e cancelamentos, é um gesto revolucionário.

Amizade verdadeira não se mede por curtidas, mas por presença, mesmo na ausência. É ouvir e ser ouvido. É rir das bobagens, dividir dores, celebrar vitórias. É o orvalho das pequenas coisas que renova o coração, como um café quente em dia chuvoso.

Por isso, digo com convicção: cultivar amizades é semear gratidão. São elas que nos permitem navegar as sombras e celebrar as luzes. Se as redes tentam diluí-las em algoritmos, cabe a nós mantê-las vivas, como poesia encarnada no cotidiano.