Política e Resenha

ARTIGO – ACM Neto pode desistir da disputa pelo governo da Bahia em 2026

 

 

(Padre Carlos)

A política baiana sempre reservou capítulos marcados pela prudência calculada de seus protagonistas. ACM Neto é um desses personagens que medem cada passo com régua e compasso, atento ao risco de transformar uma derrota em obstáculo para o futuro. Foi assim em 2018, quando recuou diante da força eleitoral de Rui Costa, e pode ser assim novamente em 2026, diante do cenário que se desenha com o governador Jerônimo Rodrigues consolidando apoios e fortalecendo sua presença na cena estadual.

A conjuntura atual guarda semelhanças com aquela de oito anos atrás. Jerônimo não é Rui Costa em densidade administrativa, mas tem carisma, proximidade com prefeitos e deputados e, sobretudo, a máquina do Estado a seu favor. Entregando obras e mantendo uma boa relação política, o governador cria dificuldades adicionais para o ex-prefeito de Salvador. Nos bastidores, cresce a leitura de que Neto enfrenta um desgaste com sua própria base, fruto do pouco diálogo, do distanciamento e da dificuldade em manter compromissos firmes. Essa falta de confiança da classe política pode ser um impeditivo tão grande quanto os índices de aprovação do governo adversário.

O dilema de Neto é claro. Se concorrer e perder novamente, acumulará duas derrotas seguidas para o grupo petista, o que reduzirá drasticamente suas chances de viabilizar um projeto político futuro. Se recuar, repetirá o roteiro de 2018, mas preservará seu capital para 2028, quando poderia tentar voltar à prefeitura de Salvador ou buscar um mandato legislativo em Brasília. Essa saída menos arriscada, embora vista por muitos como covarde, pode ser a mais estratégica diante do quadro adverso.

A verdade é que o carlismo já não mobiliza como antes. A Bahia mudou, o eleitorado se diversificou e as alianças que garantiam hegemonia já não respondem às exigências do presente. A política, como a vida, é feita de tempo e circunstâncias, e talvez o tempo de Neto para disputar o governo da Bahia já tenha passado. O que resta é avaliar se ele terá coragem de enfrentar o risco da derrota ou se escolherá mais uma vez preservar-se na sombra, adiando um sonho que parece cada vez mais distante.