Política e Resenha

ARTIGO – Agora Inês é morta: o arrependimento tardio de Mário Negromonte Jr

 

(Padre Carlos)

Na história portuguesa, o mito de Inês de Castro nos deixou uma das expressões mais fortes da língua: “agora Inês é morta”. Essa frase ecoa até hoje para simbolizar o arrependimento inútil, quando o gesto vem tarde demais. É exatamente essa metáfora que cabe ao episódio recente envolvendo o deputado federal Mário Negromonte Jr., que depois de apertar o botão e votar a favor da famigerada PEC da Blindagem, veio a público para dizer que se arrependeu.

As ruas já haviam dado o recado. O povo, cansado das manobras que protegem os poderosos e enfraquecem o combate à corrupção, expôs o teatro em Brasília. As máscaras caíram, os bandidos foram desmascarados, e a reação foi imediata. O voto de Negromonte Jr., alinhado à blindagem da classe política, não passou despercebido.

Durante um evento em Pedro Alexandre (BA), o parlamentar tentou justificar-se: disse que os deputados foram surpreendidos por mudanças de última hora no texto, reconheceu que a proposta virou “PEC da Bandidagem” e garantiu que, no Senado, espera pela rejeição. Prometeu ainda que votará contra a PEC da Anistia, declarando que “devia essa explicação ao povo”.

Mas aqui cabe a reflexão: de que adianta o arrependimento quando o estrago já está feito? É preciso lembrar que o voto está registrado, a blindagem foi fortalecida e o desgaste da política se aprofunda. O eleitor não quer justificativas tardias, mas coragem no momento decisivo. O mito de Inês ensina que não adianta chorar depois da execução: o arrependimento só tem valor quando se antecipa ao erro.

O episódio revela a distância abissal entre Brasília e as ruas. Para os políticos, os votos podem ser revistos em entrevistas; para o povo, as consequências são reais e imediatas. E assim, a cada manobra, cresce a descrença no sistema, enquanto os discursos de arrependimento tardio soam como mera tentativa de sobrevivência eleitoral.

Agora Inês é morta. E o povo já aprendeu a identificar quem tenta ressuscitar a confiança apenas quando o vento sopra contra.