Política e Resenha

A Salvador que Ficou na Alma

 

 

Por Padre Carlos

 

“A saudade é o amor que fica, é a emoção que se embala, é o desejo que se cala…” – e como se cala profundo quando penso na Pituba, no Nordeste,na Amaralina e na Salvador dos  anos oitenta, quando a vida tinha o sabor doce da juventude e o mundo parecia infinitamente possível.

O Chamado e a Partida

Foi preciso partir. O chamado sagrado ecoou mais forte que as ondas da Amaralina, mais persistente que o som dos tambores do Pelourinho nas noites de segunda-feira. Vitória da Conquista me esperava com seus horizontes diferentes, suas serras e seu clima seco – tão distante do sal e da maresia que corriam em minhas veias como sangue baiano.

Quando peguei aquele ônibus rumo ao seminário, levava apenas uma mala de roupas, mas deixava para trás um universo inteiro. Não sabia então que estava carregando algo invisível, algo que Machado de Assis definiria perfeitamente: “a presença da ausência” de tudo aquilo que havia sido minha vida até então.

A Salvador da minha retina

Minha Salvador dos anos oitenta não era apenas uma cidade – era um estado de espírito. Era acordar sem pressa, era a política fervilhando na Igreja, na Pastoral Operária, na CVX no núcleo do Partido nas esquinas do Nordeste de Amaralina, era a sensação de que cada dia poderia trazer uma revolução ou uma festa – e frequentemente trazia as duas coisas juntas.

Era a época em que discutíamos os rumos do país com a paixão de quem acredita que as palavras podem mudar o mundo. Éramos jovens, éramos baianos, éramos invencíveis. As ruas eram nossas, os debates eram nossos, o futuro era nosso. Caminhava pelas pedras do Centro Histórico carregando sonhos grandes demais para caberem em qualquer seminário.

A conjuntura política daqueles anos tinha o sabor urgente da redemocratização. Cada comício era uma festa, cada discussão era uma descoberta. Vivíamos a história em tempo real, e eu estava lá, no meio de tudo, sem grandes preocupações além de entender o mundo e talvez salvá-lo um pouquinho.

O Que Ficou Para Trás

Quando escolhi o seminário, não sabia que estava escolhendo também uma forma especial de saudade. Deixei para trás as tardes longas nos bares de Amaralina, onde política e cerveja se misturavam numa embriaguez de esperança. Deixei os domingos preguiçosos na praia, quando o maior problema era decidir se ficava no sol ou procurava a sombra.

Deixei aquela vida sem grandes preocupações – não porque fosse irresponsável, mas porque tinha a certeza inabalável de que tudo daria certo. Era jovem demais para duvidar, baiano demais para se apressar, apaixonado demais pela vida para se preocupar com detalhes.

Deixei os amigos que ficaram discutindo política até o amanhecer, que continuaram frequentando os mesmos lugares, que envelheceram juntos enquanto eu envelecia longe. Deixei uma versão de mim mesmo que nunca mais voltou – aquele jovem que acreditava que podia abraçar o mundo inteiro.

A Dor Gostosa da Lembrança

Como define a sabedoria anônima: “Saudade não é tristeza. Saudade é o amor suspenso no tempo.” E é exatamente isso que sinto quando o vento de Conquista traz algum perfume que me lembra o MraC ou a Paróquia do Santo André, ou quando ouço uma música que tocava naqueles anos oitenta dourados.

A saudade da minha Salvador não é arrependimento – é gratidão transformada em melancolia. É “a certeza de que alguns momentos merecem durar para sempre na memória”, como diz o texto. E merecem mesmo. Aqueles anos formaram quem sou, mesmo que eu tenha escolhido ser outra coisa.

É “sentir que algo foi tão bom que o coração se recusa a aceitar que passou.” Meu coração teimoso ainda guarda cada esquina daquela cidade, cada tarde de discussão política, cada risada sem motivo, cada sonho impossível que parecia perfeitamente realizável.

O Seminário e a Transformação

Vitória da Conquista me recebeu com outros horizontes, outras pessoas, outra missão. O seminário me deu propósito, me ensinou disciplina, me mostrou caminhos que eu nem sabia que existiam. Mas também me ensinou que alguns amores ficam para sempre suspensos no tempo, como diria Pessoa – nem morrem, nem se realizam plenamente.

A vocação era verdadeira, o chamado era real. Mas isso não impediu que, nas noites silenciosas do seminário, eu revisitasse mentalmente aquelas ruas de Salvador, aqueles debates acalorados, aquela sensação de que o mundo estava começando e eu tinha um papel importante nele.

A Salvador que Mora em Mim

Hoje entendo que não deixei Salvador para trás – trouxe ela comigo. Ela mora nas minhas convicções políticas que nunca morreram, na minha forma baiana de ver a vida, na minha recusa em aceitar que os sonhos têm prazo de validade.

A saudade me ensinou que alguns lugares não são apenas geografia – são estados da alma. Minha Salvador dos anos oitenta existe sempre que defendo uma causa justa, sempre que rio de uma piada bem contada, sempre que acredito que amanhã pode ser melhor que hoje.

Fernando Pessoa estava certo: a saudade é “um pedaço de alma que se arranca sem dor aparente e que só se revela na ausência.” Revelou-se em Conquista, revelou-se no seminário, revela-se ainda hoje, tantos anos depois.

E talvez seja essa a maior lição que aqueles anos oitenta me deixaram: que podemos partir de um lugar sem nunca realmente deixá-lo. Que a juventude não é uma fase da vida, mas uma forma de olhar para ela. Que a política não é apenas conjuntura, mas a crença eterna de que podemos fazer a diferença.

Minha Salvador continua acontecendo em mim, todos os dias, temperada pela saudade e abençoada pela gratidão de ter vivido aqueles anos únicos, naquela cidade única, sendo aquele jovem que nunca deixei completamente de ser.