Política e Resenha

ARTIGO – O Abraço que Compreende o Incompreensível (Padre Carlos)

 

 

Há frases que não apenas nos tocam, mas parecem permanecer gravadas em nós como uma cicatriz luminosa. O filósofo Martin Buber, um dos grandes intérpretes do mistério humano, escreveu: “O mundo não é compreensível, mas é abraçável.” Quando pronuncia essas palavras, ele não se refere apenas ao mundo exterior, com suas paisagens e enigmas, mas também ao mundo íntimo que carregamos em nossa alma: dores, alegrias, feridas e esperanças que tornam cada pessoa única em sua travessia pelo tempo.

O limite da compreensão humana é justamente este: o outro permanece sempre outro. Podemos estar próximos, podemos nos amar intensamente, e ainda assim haverá sempre um espaço que não se ultrapassa. É por isso que Buber nos ensina que o essencial não é compreender, mas abraçar — até mesmo aquilo que não compreendemos.

Demorei anos para sentir a força dessa verdade. Recordo uma pregação de Dom Celso José, que dizia aos seminaristas: “Quando a sua cruz pesar, não tenha medo. O Senhor está conosco, nos dando forças para carregá-la. Não fuja da sua cruz, abrace-a.” Entendi, então, que o abraço não é apenas gesto humano, mas também linguagem divina.

A grandeza do abraço está exatamente nisso: ele alcança lugares que a razão não alcança. A compreensão busca explicações, sonha mapas, deseja decifrar segredos. O abraço, ao contrário, aceita o mistério. Ele reconhece que há uma pele que separa e une, e que nem mesmo no mais íntimo encontro se dissolve por completo. Aristóteles já nos advertia: o toque nunca elimina totalmente a distância. Há sempre um intervalo mínimo que impede a fusão absoluta — e graças a isso, aprendemos que aproximar não é consumir, mas acolher.

No abraço, baixamos as defesas. Os braços se abrem, os corações se entregam, e a misericórdia encontra espaço para florescer. Não se trata de possuir, mas de permitir que o outro exista em nós, sem anular-se.

Foi pensando nisso que me lembrei dos muitos amigos que eu gostaria de abraçar hoje. Um abraço forte, capaz de atravessar distâncias, de aquecer solidões, de lembrar que não estamos sós. Abraço, também, cada pessoa que fez parte da minha formação, cada rosto e cada gesto que me ajudaram a me tornar mais humano.

E, se me permite, deixo aqui um abraço para você, leitor. Para que saiba que, independentemente do que aconteça, há sempre um abraço esperando por você.