(Padre Carlos)
Donald Trump piscou. Recuou do tarifário depois de uma inédita destruição de valor nos mercados globais. Foi ele o responsável direto pelo caos que se abateu sobre bolsas de valores, fundos de investimento e índices econômicos de todos os continentes. A reversão imediata dos mercados após o recuo não apaga o estrago — e talvez este seja irreversível. O nome do dano é claro: perda de confiança.
Perda de confiança no Tesouro americano, até então visto como o porto seguro mais sólido para os investidores internacionais. Perda de confiança na condução política que emana da Casa Branca. Perda de confiança na capacidade dos Estados Unidos de liderar o sistema global, construído ao longo de oito décadas.
O que se vê não é tática de negociação nem cálculo estratégico. Trata-se, antes, de um caso inédito de suicídio geopolítico, praticado em praça pública e sem anestesia. O combustível dessa tragédia é uma mistura explosiva de ignorância, arrogância e incompetência. E o mais grave: cometido em nome de um eleitorado que, ao levar Trump à Casa Branca, sinalizou que já não importa mais o que os Estados Unidos representaram como modelo político, econômico e cultural para o Ocidente.
Estamos diante de uma destruição sem mapa do que virá em seguida. A primeira reação das maiores instituições financeiras e consultorias internacionais foi de perplexidade: incertezas quanto à inflação global, dúvidas sobre o ritmo do crescimento econômico mundial e temores quanto ao futuro da guerra comercial com a China. E aqui está a contradição: mesmo recuando em parte, Trump manteve tarifas altíssimas contra Pequim, acima de 100%. Em resumo: nem vitória política, nem vitória econômica — apenas confusão.
No início do ano, os Estados Unidos detinham a posição mais privilegiada entre os países do G7. Três meses depois, Trump conseguiu implodir essa vantagem histórica. O mundo agora observa atônito o maior império econômico contemporâneo desorganizar-se por decisão de seu próprio comandante.
A pergunta que fica ecoando é: como reconstruir a confiança global depois de um desastre dessa magnitude? Não basta reverter tarifas; não basta “piscar”. A confiança perdida talvez seja o mais caro dos ativos, e a história cobrará alto por esse suicídio geopolítico.





