Política e Resenha

O Silêncio do Baobá: Itapetinga se Despede de Michel Hagge, o Último Coronel Modernizador

 

Itapetinga, Bahia – Uma era política, densa e complexa como os anéis de um tronco centenário, chegou ao fim. Aos 97 anos, Michel José Hagge Filho, o homem que se confundiu com a própria história de Itapetinga por mais de meio século, silenciou. Sua partida, nesta quarta-feira, 1º de outubro de 2025, após dias de internação em Vitória da Conquista, deixa um vácuo que transcende a mera ausência física. Com Hagge, morre um estilo de fazer política, um modelo de liderança que moldou a cidade à sua imagem e semelhança, para o bem e para o mal.

A comoção que toma conta de Itapetinga é a prova irrefutável de sua relevância. Chamá-lo de “baluarte”, como fez a prefeitura em nota oficial, é a tradução protocolar de um sentimento mais profundo e difuso. Michel Hagge não foi apenas um prefeito por três ocasiões ou um deputado estadual por dois mandatos. Ele foi uma instituição. Um misto de coronel à moda antiga, com o controle político e o carisma pessoal como ferramentas de poder, e de gestor com rasgos de modernizador, que entendia a necessidade de pavimentar não só ruas, mas também o futuro.

Sua trajetória, iniciada ainda nos tempos da UDN e consolidada no MDB, espelha as transformações do Brasil. Atravessou a ditadura militar, a redemocratização e as sucessivas crises econômicas, mantendo-se como o eixo gravitacional da política local. Governou Itapetinga em períodos distintos (1983-1988, 1993-1996 e 2005-2008), o que lhe permitiu deixar marcas indeléveis na infraestrutura e no desenvolvimento urbano do município. Parques, avenidas e equipamentos públicos inaugurados sob suas gestões ainda hoje são parte essencial do cotidiano itapetinguense.

No entanto, seria simplista e historicamente impreciso pintar o retrato de Hagge em tons monocromáticos. Seu poder, vasto e duradouro, também foi fonte de controvérsias. A longa permanência de sua família no poder – um legado que hoje se perpetua em seu neto, o atual prefeito – sempre levantou debates sobre a renovação política na cidade. Decisões centralizadoras, como a polêmica demolição de boxes no mercado municipal em um de seus mandatos, renderam-lhe críticas e processos, evidenciando um estilo de governar que por vezes beirava o personalismo.

Ele era o “Doutor Michel”, figura que transitava com a mesma desenvoltura entre o aperto de mão no curral e a articulação nos gabinetes de Salvador. Um homem cuja biografia se entrelaçou de tal forma com a de sua cidade que é impossível contar uma sem evocar a outra. Essa simbiose, contudo, cobra seu preço. Itapetinga, que por tanto tempo se viu através dos olhos e das ações de Hagge, se vê agora órfã de sua principal referência política, forçada a confrontar o futuro sem a sombra protetora (ou impositiva) de seu velho cacique.

A morte de Michel Hagge não é apenas o fim de uma vida longeva e de uma carreira política vitoriosa. É o ponto final em um capítulo da história do coronelismo baiano, um coronelismo que soube se adaptar, trocar o chapéu de couro pelo terno de linho, mas que nunca abriu mão da centralização do poder e da influência familiar.

O desafio de Itapetinga, agora, é aprender a caminhar sem o seu baobá. É honrar o legado de desenvolvimento inegável, mas também superar as amarras de um modelo político que, tal como seu maior artífice, pertence a um outro tempo. A cidade se despede de seu líder máximo. O silêncio que se instala não é apenas de luto, mas de reflexão sobre os caminhos que se abrem quando a árvore mais alta da floresta, enfim, tomba.