
Por Padre Carlos
Meus dedos já não dançam com a agilidade de outrora, mas ainda sabem escrever com pena invisível da memória. Cada ruga em meu rosto é um parágrafo, cada linha uma crônica que o tempo escreveu com mãos firmes e ternas. O espelho não mente: estou velho. Mas há uma juventude que insiste em morar dentro de mim, como uma criança escondida atrás das cortinas da pele.
O tempo, esse escultor silencioso, moldou meu corpo com paciência. Os joelhos rangem como portas antigas, os olhos perderam um pouco da nitidez, mas ganharam profundidade. Vejo mais do que antes — não com a retina, mas com a alma. E ela, ah, essa não envelhece. É como uma chama que resiste ao vento, pequena, mas teimosa.
🎶 A música da lembrança
Hoje, ao baixar o vidro do meu carro, o vento trouxe uma canção distante. Era a mesma balada que tocava no barzinho do Nordeste onde a conheci em 1982. Ela usava um vestido azul que dançava com o corpo, e seus olhos tinham o brilho de quem ainda não sabia que o tempo existe. Naquela tarde, dançamos até que o mundo esquecesse-se de girar. O cheiro de jasmim, o som do violão, o calor das mãos entrelaçadas — tudo voltou com uma força que me fez sorrir e chorar ao mesmo tempo.
A música tem esse poder: ela é a ponte entre o agora e o antes. Cada acorde é uma chave que abre portas trancadas pela pressa da vida. E quando fecho os olhos, sou novamente aquele rapaz puro, de cabelos encaracolados e sonhos grandes demais para caber no bolso.
🌿 A alma que floresce no inverno
Há quem diga que envelhecer é murchar. Discordo. É florir de outro jeito. A juventude é primavera, sim, mas a velhice é outono — e há beleza nas folhas que caem. A alma, essa viajante incansável, continua a se emocionar com o pôr do sol, com o riso de uma criança, com o cheiro de pão saindo do forno. Ela não se rende. Ela resiste.
Às vezes, escrevo cartas para amigos que já partiram ou deixaram de fazer parte do meu dia a dia. Não as envio claro. Mas ao escrever, sinto que eles me visitam. Conversamos sobre os tempos bons da Pituba da década de 60, rimos das bobagens do grupo de jovens e da época de militância, choramos juntos quando um amigo saia do seminário e não faria mais parte da nossa vida. A memória é um lugar onde ninguém morre de verdade nem lhe abandona.
🖋️ Epílogo de esperança
Se há algo que aprendi, é que a vida não se mede em anos, mas em instantes que nos atravessam como flechas de luz. A arte — seja uma canção, um poema ou um abraço — tem o dom de reacender o que parecia apagado. E enquanto houver lembrança, haverá juventude. Enquanto houver emoção, haverá vida.
Hoje, estou um velho com alma de menino. E isso basta.
Porque no fim, o tempo pode levar o corpo, mas jamais levará a música que mora nas rugas.




