Política e Resenha

Lula conversa com Donald Trump por telefone em meio a tarifaço sobre produtos brasileiros

 

 

 

Em política internacional, há momentos que mais parecem cenas de um filme improvável. A ligação de Lula para Donald Trump, ocorrida nesta segunda-feira (6), é uma dessas passagens em que o roteiro parece ultrapassar o limite do realismo diplomático. De um lado, um líder progressista latino-americano, defensor da multipolaridade e da regulação global; de outro, o símbolo máximo do populismo conservador e nacionalista norte-americano. E, no entanto, ali estavam os dois, trocando afagos e ensaiando o que pode ser uma reaproximação estratégica entre Brasília e Washington.

O contexto dessa conversa não poderia ser mais tenso. O chamado “tarifaço” imposto por Trump — uma sobretaxa de até 50% sobre produtos brasileiros — acendeu o sinal vermelho no Itamaraty e no Ministério da Fazenda. Afetou diretamente setores agrícolas, metalúrgicos e têxteis, além de gerar insegurança no comércio bilateral. Foi um movimento de impacto político, mais do que econômico, pois veio acompanhado de insinuações sobre o caso Bolsonaro e críticas à liberdade de expressão no Brasil. Em outras palavras: um gesto de pressão e poder.

Lula, experiente em lidar com egos e contradições, entendeu que era hora de agir. A ligação não foi um ato impensado, mas uma peça calculada de xadrez diplomático. Ao convidar Trump para a COP30 em Belém e propor a retirada do tarifaço, o presidente brasileiro apostou na diplomacia do diálogo direto — sem intermediários, sem rancores. Um gesto pragmático, digno de quem compreende que política externa é o terreno da razão e não da emoção.

O detalhe mais curioso da conversa foi o clima descrito como “amistoso”. Trump, que em outros tempos flertou com o bolsonarismo e chegou a tratar o Brasil como extensão ideológica de sua própria política, agora fala em “boa química” com Lula. É a velha arte do cálculo geopolítico: o mesmo líder que já chamou o Brasil de “ameaça comercial” agora percebe a importância de uma parceria estratégica com o país que detém a Amazônia, terras raras e potencial energético inigualável.

Há, contudo, um dilema nessa aproximação. A diplomacia de Lula sempre foi marcada por princípios de soberania e solidariedade entre os povos do Sul Global, enquanto Trump opera na lógica transacional — ganha quem oferece mais. Será que há espaço para convergência entre essas visões? Talvez sim, se o interesse mútuo se sobrepor às ideologias. A economia fala alto, e os mercados já observam com atenção os sinais de descompressão.

O fato é que Lula sabe o peso simbólico de Trump. Em ano pré-eleitoral nos Estados Unidos, qualquer gesto de diálogo com o líder republicano projeta o Brasil novamente no centro do tabuleiro mundial. A América Latina volta a ser ouvida, não por submissão, mas por pragmatismo. Afinal, em tempos de guerras comerciais e disputas tecnológicas, nenhum país pode se dar ao luxo de escolher inimigos por convicção ideológica.

O telefonema desta segunda-feira é, acima de tudo, um ato político de alto risco — e de alta recompensa. Se o diálogo evoluir e o tarifaço for revisto, Lula terá demonstrado que a diplomacia ainda é a arma mais poderosa contra o populismo beligerante. Se fracassar, terá ao menos mostrado que o Brasil prefere a mesa de negociações à retórica de confronto.

Em um mundo dividido entre muros e pontes, Lula apostou na ponte. E, por ora, Trump parece disposto a atravessá-la.

(Padre Carlos)