
Por Padre Carlos
Se há algo de que o conquistense pode se orgulhar, é o fato de que, entre as grandes cidades da Bahia, Vitória da Conquista — a nossa “Joia do Sertão” — é a única que não possui favelas. Esse é um dado notável, uma conquista coletiva que revela um traço de sensibilidade social e planejamento urbano raramente vistos no país.
Não se trata de mérito de um único grupo político. Ao longo das décadas, administrações de esquerda e de direita tiveram o mérito de compreender que a dignidade humana começa com o direito à moradia. Houve uma preocupação real, transversal, com o urbanismo, com a habitação popular e com a inclusão social. Cada gestão, à sua maneira, contribuiu para que Conquista se tornasse um exemplo de cidade que acolhe seus filhos com um mínimo de dignidade — sem barracos, sem favelas, sem as feridas abertas que se vêem em outras capitais e metrópoles.
Contudo, seria ingênuo imaginar que esse modelo não precise de ajustes. Os programas habitacionais que sustentam esse padrão — financiados com recursos federais e complementados com investimentos municipais em infraestrutura — merecem, mais do que aplausos, um olhar crítico. É preciso garantir que os subsídios públicos, ou seja, o dinheiro do povo, cumpram de fato o seu papel social.
Hoje, um dos problemas mais sensíveis está na facilidade com que muitos beneficiários vendem ou repassam os imóveis obtidos através de programas habitacionais. Quantas casas já foram transferidas a terceiros? Onde estão essas informações? Há transparência suficiente? A questão é séria. Se essa prática for permitida pela letra da lei, ainda assim, é imoral. Porque não basta ser legal — é preciso ser moral.
Quando uma política pública voltada para os mais pobres se transforma em oportunidade de lucro fácil, o espírito da lei é traído. A casa que deveria abrigar uma família carente torna-se mercadoria. E o Estado, em vez de combater a desigualdade, acaba por financiá-la.
Vitória da Conquista tem muito do que se orgulhar. Mas o verdadeiro progresso não está apenas nas obras, nas avenidas, ou na estética urbana. Está na ética social. É preciso zelar para que o legado de cidade sem favelas não se transforme em terreno fértil para novas injustiças — não mais visíveis nas encostas e vielas, mas escondidas nos papéis, nos cartórios e nas negociações silenciosas.
Ser conquistense é motivo de orgulho. Mas é também um chamado à vigilância moral e à responsabilidade pública. Porque uma cidade que não tem favelas, mas fecha os olhos para a imoralidade, corre o risco de construir um novo tipo de pobreza — a pobreza de princípios.




