Política e Resenha

O papel do líder em tempos de dor

 

 

Por Padre Carlos

 

Em tempos de bonança, liderar é administrar. Em tempos de dor, liderar é sentir. Quando a tragédia atravessa uma nação — seja pela perda de vidas, pela devastação ambiental ou pela ferida moral — o verdadeiro papel do líder se revela. Ele deixa de ser apenas gestor de números e se torna guardião de afetos. Sua palavra pode consolar ou dilacerar; seu silêncio pode ser bálsamo ou sentença.

 

O líder, nesses momentos, é símbolo. É voz que traduz o sofrimento coletivo, presença que ampara, postura que inspira. A dor pública exige empatia pública. E empatia, diferente da piedade, é uma escolha: a de se colocar ao lado de quem sofre, e não acima. É compreender que a função de governar não é medir lucros, mas preservar dignidades.

 

Quando um governante zomba da tragédia, não erra apenas na forma — trai o fundo. A fala de Tarcísio, mais do que infeliz, foi reveladora. Revelou a distância abissal entre o poder e o povo. Mostrou que há quem veja na dor coletiva uma oportunidade de ironia, e não de solidariedade. E isso não é um simples deslize comunicacional: é uma falência moral.

 

A imagem que viralizou cumpre, paradoxalmente, uma função nobre: arquiva o escárnio. Em uma era de fugacidade digital, em que o absurdo é substituído pelo próximo escândalo em questão de minutos, a arte e a imagem cumprem o papel de memória. Elas fixam o que o poder gostaria de apagar. Cada charge, cada montagem, cada frase repercutida é uma forma de resistência. Lembrar é impedir que o esquecimento normalize a crueldade.

 

A Coca-Cola pode ter perdido o gás, mas a sociedade não perdeu o fôlego. A indignação que percorre as redes, as praças e os corações é prova de que ainda há vida vibrando nas artérias da democracia. Que a arte continue a denunciar, que a palavra continue a incomodar e que o povo continue a exigir respeito — mesmo quando a resposta vier em forma de piada.

 

Porque um país só morre quando seu povo para de se indignar. E o Brasil, apesar de tudo, ainda respira.