Política e Resenha

ARTIGO – (A vida não se anula)

 

 

(Padre Carlos)

Dizer que um inimigo deve ser “exterminado” é colher ódio para semear mais ódio. Ouvi, com dor, as palavras do senador Jaques Wagner — que afirma que o Hamas precisa ser exterminado — e sinto-me compelido a discordar. Conheço Wagner há mais de quarenta e cinco anos: trabalhamos juntos, estive nas campanhas de 1986 e 1990. Sei de sua inclinação conciliadora, de seu desejo de não se queimar. Mas, nesse momento, é necessário apontar limites éticos e políticos onde nem mesmo a velha camaradagem me faz calar.

Defendo, sem hesitação, a vida e o povo palestino. As cenas que nos chegam — crianças mortas, corpos de civis, bairros reduzidos a escombros — não são abstrações: são rostos, nomes, tragédias que deveriam mobilizar nossa humanidade, não nos dessensibilizar. Quando falamos em “genocídio”, não o fazemos por retórica; usamos uma palavra que descreve a gravidade de um ataque sistemático contra um povo. Negar a gravidade do que acontece com civis palestinos é fechar os olhos à evidência moral.

É plenamente legítimo condenar o Hamas como organização que pratica terrorismo. Não faço defesa de atentados ou da violência contra civis. Mas responder ao terrorismo com apelos públicos ao “extermínio” é cruzar uma linha perigosa: transforma política em vingança e justiça em linchamento coletivo. O que a lei, a ética democrática e o direito internacional demandam são investigações, provas, julgamentos e responsabilização — não decretos de ódio. Justiça exige processo e responsabilização, não sentenças de morte proferidas em tribunas.

Há outra distinção indispensável: judaísmo ≠ sionismo. Muitos judeus vivem uma fé e uma tradição milenar que nada têm a ver com as políticas do Estado de Israel. Criticar a ocupação, as políticas expansionistas ou até mesmo o sionismo político não é, por definição, antissemita. Precisamos ser rigorosos ao separar a crítica política legítima de qualquer perseguição religiosa ou étnica. Acusar toda e qualquer crítica de antisemitismo é uma forma de silenciamento que empobrece o debate e impede a busca por soluções humanas.

Quanto à pergunta — que alguns, talvez em fúria, coloquem em palavras duras: “Os sionistas que cometeram genocídio também merecem ser exterminados?” — respondo com firmeza: não. Não posso, em hipótese alguma, endossar a ideia de exterminar povos, grupos religiosos ou políticos. Defender a vida significa defender a vida de todos, inclusive a dos que erraram. A resposta civilizada é responsabilização: investigação dos crimes, processos em tribunais internacionais, sanções dirigidas a responsáveis, documentações e depoimentos que permitam julgar culpados conforme o direito internacional. É com isso — e não com extermínios — que se constrói memória, justiça e prevenção de novos crimes.

A retórica belicosa também é contraproducente politicamente. Fala de extermínio acirra reações, silencia vozes moderadas, empurra indecisos para os extremos e mina as possibilidades de cessar-fogo e negociação. Se o objetivo verdadeiro é reduzir o sofrimento e proteger vidas, devemos empregar diplomacia ativa, pressionar por corredores humanitários, garantir ajuda à população civil e exigir a abertura de investigações imparciais sobre possíveis crimes de guerra. Exigir um cessar-fogo imediato e a proteção de civis não é neutralidade: é priorizar a vida humana sobre interesses geopolíticos.

Sou da esquerda que não abandona princípios. Defender o direito do povo palestino à existência e à dignidade não significa ignorar as atrocidades cometidas por grupos como o Hamas. Significa, ao contrário, ampliar a nossa luta por justiça: que o direito internacional seja aplicado igualmente, que vítimas — palestinas e israelenses — tenham sua dor reconhecida e que os responsáveis por crimes contra civis respondam perante a lei. Solidariedade palestina, portanto, é também demanda por responsabilização e por mecanismos que impeçam a repetição do horror.

Neste momento, é preciso coragem — mas não a coragem da retórica vingativa. É preciso a coragem de enfrentar interesses poderosos, de falar claro contra o racismo e contra o desespero que leva à barbárie, e de clamar por um caminho que preserve vidas. Como alguém que viveu a política por décadas, afirmo: palavras importam. O que dizemos hoje molda o amanhã. Por isso rejeito o extermínio como política; recomendo, com urgência, caminhos legais — tribunais, comissões, sanções direcionadas — e um esforço diplomático que coloque um cessar-fogo e medidas humanitárias no centro.

Que nossa posição seja de defesa intransigente da vida, dos direitos humanos e do direito internacional. Que a memória das crianças e civis mortos nos impeça de responder com a mesma desumanidade que denunciamos. E que possamos, juntos, exigir justiça com humanidade.

(Padre Carlos)