
(Padre Carlos)
O Brasil amanhece colorido no Dia das Crianças. É um dia de parques cheios, de risadas ecoando pelas ruas, de presentes embrulhados com fita e amor. As praças se tornam palcos de brincadeiras, os corações dos pais se enchem de ternura, e as vitrines das lojas parecem sorrir para a infância. O brasileiro, povo alegre por natureza, encontra neste dia um respiro de esperança, um lembrete de que o futuro se constrói com o brilho dos olhos de seus pequenos.
Mas, se para nós o dia 12 de outubro é símbolo de festa, para o povo paraguaio a comemoração infantil tem um peso diferente — e uma data carregada de lágrimas. No dia 16 de agosto, o Paraguai celebra o Dia da Criança, uma data que nasceu da dor. Não é apenas uma efeméride, mas uma ferida aberta na história latino-americana.
Em 16 de agosto de 1869, durante a Guerra do Paraguai, aconteceu a terrível Batalha de Acosta Ñu. Naquele trágico dia, um exército de cerca de 20 mil soldados brasileiros enfrentou 3.500 paraguaios, em sua maioria crianças e adolescentes entre 9 e 15 anos — muitos ainda menores, entre 6 e 8 anos, levados à luta como última tentativa desesperada de defesa de sua pátria. O que se seguiu foi mais massacre que batalha: meninos armados de paus, pedras e farrapos enfrentaram baionetas, cavalaria e fogo de canhão.
Acosta Ñu não é apenas um episódio militar; é uma das maiores tragédias humanas da América do Sul. É o retrato da inocência sacrificada nos altares da ambição e da guerra. Enquanto o Brasil comemora a infância com presentes e brincadeiras, o Paraguai relembra, neste mesmo espírito, o custo de um passado cruel que roubou sua geração mais jovem.
O Dia da Criança no Paraguai não é de festa. É de memória, resistência e reflexão. Cada 16 de agosto é um convite à humanidade para lembrar que os pequenos de Acosta Ñu não morreram em vão. Eles simbolizam todas as crianças que tiveram suas infâncias interrompidas pela guerra, pela pobreza, pela violência e pela indiferença.
Nós, brasileiros, devemos olhar para essa história com respeito e compaixão. Celebrar o Dia das Crianças com alegria é um privilégio que só faz sentido se for acompanhado da consciência de proteger a infância em toda parte — não apenas a que sorri nos shoppings, mas também a que chora nas fronteiras, nas favelas, nas zonas de guerra.
A verdadeira homenagem às crianças está em garantir-lhes paz, educação, saúde e amor. É assegurar que nenhuma delas seja novamente usada como escudo em batalhas políticas, ideológicas ou militares.
Neste 12 de outubro, quando o Brasil celebra o riso e o colorido da infância, que também ecoe um silêncio respeitoso por aquelas crianças do Paraguai — pequenas heroínas e heróis de uma história que o mundo não pode esquecer. Que a lembrança de Acosta Ñu sirva de lição: a infância é sagrada, e nenhuma nação pode se dizer livre enquanto permitir que seus pequenos sejam vítimas da violência dos adultos.
Que o riso das crianças brasileiras encontre eco na memória das paraguaias, e que, juntas, essas vozes infantis recordem à humanidade que a paz é o maior brinquedo que podemos construir.




