
Por Padre Carlos
A recente polêmica sobre a cobertura jornalística das mudanças na taxa de iluminação pública em Vitória da Conquista acende uma luz incômoda — e necessária — sobre o papel da imprensa. Afinal, até onde vai o dever de informar e onde começa o impulso de militar?
O vereador Edjaime Rosa foi direto ao acusar blogs locais de espalhar “fake news” e agir como instrumentos políticos. A crítica pode parecer dura, mas revela uma ferida aberta no jornalismo brasileiro — e não apenas nas grandes redes, como a Rede Globo. Do maior conglomerado ao menor blog, todos estamos sujeitos ao mesmo pecado: o de confundir opinião com informação, militância com jornalismo.
O espelho que não queremos encarar
Durante décadas, apontamos o dedo para os gigantes da mídia — e com razão. Acusamos a grande imprensa de parcialidade, de manipular a narrativa, de servir a interesses econômicos ou partidários. No entanto, quando fazemos exatamente o mesmo, apenas com sinal trocado, estamos sendo coerentes com nossos próprios princípios?
A verdade é simples, ainda que desconfortável: não podemos condenar a parcialidade da “grande mídia” enquanto praticamos a mesma distorção em escala menor. Ética jornalística não tem tamanho.
O caso de Conquista: um retrato do nosso tempo
O debate sobre a taxa de iluminação revelou algo maior do que a discussão sobre tarifas: mostrou como a imprensa, quando se deixa seduzir por narrativas políticas, transforma a notícia em arma.
O vereador Luciano Gomes foi cirúrgico ao afirmar que “os que gritam ‘fake news’ são os mesmos que manipulam narrativas”. E o líder da prefeita, Edivaldo Ferreira Jr., lembrou que a taxa existe desde 2002 — informação essencial que, curiosamente, poucos veículos destacaram.
Quando a imprensa escolhe o que mostrar, e o que omitir, ela não apenas informa: ela molda a percepção pública. Publicar apenas a indignação popular sem explicar o contexto histórico é, no mínimo, desonesto. Ignorar os argumentos contrários, então, é manipulação por omissão.
Os dois lados da moeda
O verdadeiro jornalismo é aquele que mostra a moeda inteira — não apenas a face que convém à narrativa do momento.
Ser jornalista é informar com contexto, pluralidade e honestidade intelectual. É ouvir todas as vozes, inclusive as que nos desagradam.
Quando um veículo se permite publicar apenas o que reforça sua posição, ele deixa de ser imprensa e passa a ser propaganda.
Meus telhados de vidro
Não escrevo de uma torre de marfim. Tenho minhas convicções, minhas simpatias políticas, minhas preferências — e sei que todos os comunicadores também têm. Mas existe uma diferença abissal entre ter opinião e distorcer fatos.
É legítimo escrever um artigo opinativo (como este) e deixar claro que se trata de uma visão pessoal. O que não é legítimo é mascarar militância com o disfarce da neutralidade jornalística.
Reconhecer nossos vieses não nos desqualifica; pelo contrário, nos torna mais vigilantes. A humildade é o primeiro passo para a credibilidade.
Os vereadores têm razão
Sim, os vereadores conquistenses têm razão ao levantar esse debate. Não porque sejam donos da verdade — políticos também têm suas agendas —, mas porque identificaram um problema real: a parcialidade disfarçada de jornalismo.
E se criticamos a Rede Globo por esse erro, precisamos ter coragem de criticá-lo também em nós mesmos. Não há jornalismo “independente” quando se age com o mesmo espírito de torcida da grande mídia que se diz combater.
O caminho de volta
Resgatar a credibilidade da imprensa exige algumas atitudes simples, mas fundamentais:
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Apresentar todos os lados da história.
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Contextualizar, sem recortes convenientes.
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Separar claramente opinião de informação.
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Admitir quando se está militando — e não fingir neutralidade.
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Ser tão crítico com os aliados quanto com os adversários.
A democracia precisa de uma imprensa livre, mas também ética. De uma imprensa que questione o poder — todos os poderes —, sem se tornar cúmplice de nenhum.
Conclusão
Não escrevo para jogar pedras, mas para lembrar que todos temos telhados de vidro. E que, se queremos reconstruir a confiança no jornalismo, precisamos começar pelo reconhecimento das nossas próprias falhas.
A imprensa não existe para inflamar — existe para informar. Não para levantar bandeiras, mas para iluminar fatos. Não para escolher lados, mas para mostrar a realidade inteira, ainda que ela doa.
Porque, no fim das contas, a verdade não tem partido — e mentir, como bem lembrou o ministro Luís Roberto Barroso, precisa voltar a ser errado de novo.




