Política e Resenha

ARTIGO – O Jogo de Classe no Supremo: Entre Togados e Intocáveis

 

(Padre Carlos)

O Supremo Tribunal Federal é, em teoria, a casa da Justiça. Na prática, tornou-se o espelho mais nítido da elite brasileira — jurídica, econômica e ideológica. Por trás dos discursos sobre “pluralidade”, “representatividade” e “diversidade”, o que se mantém é um velho e sólido pacto de classe. O STF continua a ser o espaço onde o Brasil oficial — o do poder, dos sobrenomes e das bancas milionárias — se protege do Brasil real: o das ruas, do povo, dos que não têm advogados de renome nem acesso a gabinetes.

A frase de Caetano Veloso — “O macho, adulto e branco, sempre no comando” — poderia ser o lema não oficial da Suprema Corte. E o número é escandaloso: em 134 anos de história, apenas três mulheres chegaram à mais alta instância do Judiciário brasileiro. Três. Em um país em que elas são 51,5% da população e sustentam boa parte do funcionamento social. É uma desproporção que revela mais do que desigualdade de gênero; revela o jogo de classe travestido de meritocracia.

A Armadilha da Representatividade Vazia

Mas é importante frisar: criticar a ausência de mulheres no STF não é identitarismo. É reconhecer a falha estrutural de um sistema que se diz democrático, mas não representa o povo em sua diversidade. No entanto, encher a Corte de mulheres ou negros não garante automaticamente justiça social. Já tivemos ministros negros e ministras mulheres em momentos sombrios do lawfare, quando o Judiciário se prestou a perseguições políticas e destruição de reputações — inclusive de lideranças populares e trabalhistas.

O critério decisivo não é o gênero nem a cor da pele. É a ideologia. É a visão de mundo que o ministro ou a ministra carrega. Um juiz “terrivelmente evangélico” pode ser tão autoritário quanto um togado secular, se ambos estiverem comprometidos com a manutenção do mesmo sistema de poder. O que separa um juiz do povo de um juiz do patrão é o olhar sobre o sofrimento humano — e isso não se aprende em Harvard, mas na rua.

Os Togados e o Povo Invisível

Dentro da Suprema Corte, as decisões que afetam o cotidiano do cidadão comum raramente são tomadas pensando no cidadão comum. São teses jurídicas, pareceres complexos, fundamentações eruditas — mas que quase sempre beneficiam quem tem poder econômico ou acesso a boas bancas de advocacia. A Justiça chega rápido e eficaz para o empresário que pode contratar um ex-ministro como advogado, mas engasga e morre no balcão para o trabalhador que espera um alvará de R$ 2 mil no Juizado Especial.

O STF é, portanto, o retrato perfeito da justiça de classe: quando o réu é um banqueiro, o processo vira um debate constitucional; quando é um jovem periférico, vira estatística.

O Discurso do Mérito e a Lógica do Poder

Os defensores da atual composição argumentam que “mérito” deve ser o critério supremo. Mas é preciso perguntar: quem define o que é mérito? A meritocracia no Brasil nasce viciada porque os degraus da escada social são de vidro: transparentes, mas intransponíveis para quem nasceu do lado errado da cidade.
As indicações ao STF, por sua vez, seguem uma lógica de afiliação política e redes de influência. Não há meritocracia quando os critérios são acordos de bastidor e trocas de favores entre os três poderes.

Em vez de buscar equilíbrio, o Supremo se converteu em campo de disputa de elites — conservadoras, liberais, corporativas. Nenhuma dessas elites representa o povo.

Entre a Toga e a Trincheira

Há uma ilusão confortável na esquerda e na direita: a de que o Supremo pode ser “nosso” ou “deles”. Mas o STF não tem lado ideológico fixo — tem lado de classe. Sua coerência está em proteger o establishment, não importa quem ocupe o Planalto.
Quando o interesse dos poderosos é ameaçado, o STF se torna guardião da “ordem institucional”. Quando o poder popular tenta se afirmar, ele se transforma em freio de contenção.

É por isso que, mesmo quando há avanço pontual — uma decisão progressista aqui, outra ali — o sistema como um todo continua intacto. A aparência muda, a estrutura permanece.

Conclusão: Justiça para Quem?

Não faz sentido que mulheres — maioria do país — sejam minoria quase inexistente na Corte Suprema. Mas também não faz sentido acreditar que a simples presença delas resolverá o abismo de classe que define a Justiça brasileira.
O que precisamos não é apenas de mais diversidade nos rostos, mas de ruptura na mentalidade. Precisamos de ministros que entendam que justiça não é sinônimo de neutralidade, mas de compromisso com os que mais sofrem.

Porque enquanto a Justiça continuar sendo luxo de quem pode pagar por ela, o STF continuará a ser o que sempre foi: um tribunal de elite decidindo o destino do povo que nunca entrou lá dentro.

O Brasil não precisa de um Supremo “terrivelmente religioso”, “terrivelmente liberal” ou “terrivelmente técnico”. Precisa de um Supremo terrivelmente povo — e isso, sim, seria uma revolução.