Política e Resenha

Misoginia, Bíblia e Civilidade: A Elegância de Otto Alencar Diante da Arrogância de Contarato

 

 

Por Padre Carlos Roberto

Há momentos na vida pública em que o verdadeiro caráter de um homem se revela não pelo volume da voz, mas pela serenidade do tom. Foi o que se viu na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, quando o senador Fabiano Contarato, num gesto de arrogância disfarçada de retórica, perguntou com ironia:
“Quem define o que é misoginia, senhor presidente? Um juiz, um militante, um partido?”

A provocação, feita com o claro intuito de constranger o presidente da comissão, senador Otto Alencar, acabou por revelar muito mais sobre quem a proferiu do que sobre o tema em debate. O senador baiano, com a calma de quem entende que a educação é o mais poderoso instrumento de autoridade, respondeu com uma lição de história, teologia e humanidade.

“Permita-me, Vossa Excelência, discordar…”, iniciou Otto, em tom firme, mas cortês — a antítese perfeita da insolência. E completou: “…a misoginia, o preconceito contra a mulher, é uma manifestação de ódio. Está presente desde os primórdios, como o próprio texto bíblico em Gênesis 3:16 já demonstra.”

Foi uma resposta que uniu erudição e empatia. Não houve grito, não houve vaidade. Houve, sim, um gesto de elevação moral — algo raro em tempos de teatralidade política e vaidades infladas.

Otto resgatou, com sabedoria, um ponto que muitos preferem ignorar: o preconceito contra a mulher é uma chaga antiga, tão antiga quanto a própria narrativa da humanidade. O trecho bíblico que cita — “o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” — não é uma prescrição divina de dominação, mas a constatação de uma realidade que atravessou séculos e moldou culturas. O senador lembrou que o combate à misoginia é, portanto, um dever civilizatório, espiritual e jurídico.

Enquanto Contarato buscava palco, Otto ofereceu reflexão. Enquanto um buscava holofote, o outro ofereceu luz.

Há uma diferença abissal entre a oratória que busca humilhar e a palavra que busca educar. Contarato, que já se apresentou tantas vezes como símbolo da luta contra o preconceito, pareceu esquecer que o respeito — inclusive com quem discorda — é a base de toda causa justa.

A misoginia não é um conceito de “partido” ou “militância”, como insinuou o senador capixaba. É uma doença social que mata, silencia e marginaliza mulheres todos os dias. É o ódio travestido de tradição, o preconceito que se perpetua em piadas, nas relações de poder, e até nos espaços onde se deveria legislar pela igualdade.

A fala de Otto Alencar, por sua vez, foi um lembrete oportuno de que ainda há quem leve a política a sério — quem prefira o exemplo à provocação, o argumento à grosseria. Sua menção à Bíblia não foi uma tentativa de moralismo religioso, mas uma forma de mostrar que até mesmo nos textos mais antigos da humanidade se encontram as raízes do problema que enfrentamos hoje: a cultura da desigualdade entre homens e mulheres.

A civilidade do senador baiano, contrastando com o deboche de seu colega, expôs a diferença entre representar o povo e representar a si mesmo.

O Brasil carece menos de discursos inflamados e mais de vozes serenas que saibam unir sabedoria, fé e justiça. O exemplo de Otto Alencar, neste episódio, nos recorda que o verdadeiro homem público não é o que levanta a voz, mas o que eleva o debate.

E se há uma lição a tirar dessa cena, é a de que o respeito continua sendo a mais poderosa forma de resistência.