
(Padre Carlos)
Parabéns à vereadora Lara Fernandes pela coragem, lucidez e senso de responsabilidade pública ao levantar um debate que, embora técnico, traduz uma questão moral e administrativa essencial: a transparência e a eficácia na aplicação das emendas parlamentares em Vitória da Conquista. Seu pronunciamento na Câmara Municipal, centrado na destinação de uma emenda à UFBA para ações voltadas à causa animal, não é apenas uma intervenção política — é um gesto de zelo republicano com o dinheiro público.
Fuga ao essencial e duplicidade de esforços
A vereadora foi direta ao ponto: por que destinar recursos a uma instituição que não possui curso de Medicina Veterinária em Vitória da Conquista? A Universidade Federal da Bahia (UFBA) é, sem dúvida, um centro de excelência acadêmica, mas a ausência dessa formação específica em Conquista torna a execução de um programa de castração e tratamento animal um ato de duplicidade administrativa e uma fuga ao essencial.
O município já conta com um programa de castração consolidado, mantido pela clínica veterinária pública e pelo Castramóvel, que percorre os bairros e comunidades realizando um trabalho consistente — foram mais de 4.000 castrações apenas em 2024. Redirecionar recursos para um projeto paralelo, em vez de fortalecer o que já funciona, soa como desperdício travestido de inovação. Em tempos de crise fiscal, repetir esforços é um luxo que a cidade não pode se permitir.
Prioridades ignoradas e a ausência de um abrigo público
Ao mesmo tempo, a vereadora Lara lembrou uma lacuna grave na política de proteção animal do município: a falta de um abrigo para a recuperação dos animais de rua após as cirurgias. Essa é, segundo ela, a verdadeira prioridade esquecida.
De fato, o Castramóvel tem alcançado bons resultados, mas enfrenta um obstáculo logístico e ético: os animais de rua, sem tutores, não têm onde se recuperar no pós-operatório. A ausência desse abrigo compromete toda a efetividade do programa, tornando inviável a castração dessa população — justamente a mais numerosa e vulnerável.
O investimento em infraestrutura de abrigo não é apenas uma questão de sensibilidade, mas de eficiência no gasto público. É a etapa que dá continuidade e sentido à política de controle populacional animal. Sem abrigo, não há política pública plena, há apenas paliativos.
O equívoco do chipamento: tecnologia sem propósito
Outro ponto de destaque no discurso foi o questionamento sobre a implantação de chips em animais. Embora a proposta possa parecer moderna, o alerta da vereadora é de extrema relevância. A microchipagem de animais de rua, sem estrutura adequada e sem integração com um sistema de controle municipal eficiente, é uma tecnologia de efeito duvidoso e alto custo. A cidade precisa, antes de chips, de abrigo, medicamentos, estrutura veterinária e planejamento contínuo.
O exemplo de 2015 serve como um lembrete claro: nem toda inovação é progresso, e nem toda tecnologia é prioridade.
Responsabilidade compartilhada e o papel do Legislativo
Por fim, a vereadora Lara tocou em um ponto sensível e fundamental: a responsabilidade pela causa animal é compartilhada. Embora o Executivo mantenha o programa de castração, seus recursos são limitados. As emendas parlamentares são, portanto, instrumentos vitais para ampliar o alcance e fortalecer as políticas públicas.
Mas para isso, é preciso que cada emenda seja planejada com responsabilidade, dialogando com as demandas reais do município e evitando sobreposições desnecessárias. O Parlamento não deve apenas propor — deve fiscalizar, revisar e garantir que cada real investido traga retorno social concreto.
Conclusão: o exemplo de uma vereadora que fiscaliza
O discurso da vereadora Dra. Lara é um exemplo de fiscalização cidadã e de compromisso com a boa governança. Em tempos em que a política muitas vezes se resume a disputas narrativas, ela recorda que a verdadeira política é feita de prioridades claras e responsabilidade com o dinheiro público.
Que o gesto da vereadora inspire outros parlamentares a adotarem a mesma postura: fiscalizadora, técnica e transparente. Que cada emenda destinada à Vitória da Conquista seja um passo na direção da eficiência, da transparência e do respeito à população e à causa animal.
Em resumo: mais abrigo, menos duplicidade; mais coerência, menos marketing.




