
(Padre Carlos)
Há um momento em que o tempo cobra coerência dos discursos e autenticidade dos projetos. Na Bahia, esse momento parece ter chegado para o Partido dos Trabalhadores. Depois de duas décadas no comando do Estado, o PT enfrenta um desgaste natural — e talvez inevitável — que já não se esconde nem entre seus aliados mais leais. O ex-prefeito de Belo Campo e ex-presidente da UPB, Quinho Tigre, colocou o dedo na ferida ao reconhecer que a eleição de 2026 será “dura”, e que o partido precisa rever sua estratégia para não ver desmanchar o tecido político que o sustentou desde 2006.
O alerta não vem da oposição, mas de dentro da própria engrenagem. E isso tem peso. Quando uma liderança experiente como Quinho admite a fadiga de material do projeto petista, o faz observando que o eleitor baiano já não se satisfaz apenas com a continuidade. O carisma histórico de Lula e o capital simbólico da inclusão social, que impulsionaram as primeiras vitórias, já não bastam diante de uma nova geração que cobra eficiência, inovação e resultados concretos — sobretudo no interior, onde o discurso da “Bahia de Todos Nós” perdeu parte da ressonância.
Quinho acerta ao identificar o problema: o governo Jerônimo Rodrigues tem dificuldade em imprimir uma marca própria. Herdeiro das obras e do estilo administrativo de Rui Costa, Jerônimo ainda opera sob a sombra do antecessor, o que enfraquece sua identidade política. A Bahia, no entanto, vive outro tempo. O eleitor quer ver liderança, protagonismo, e não apenas continuidade.
A vitória apertada de 2022 já foi um sinal amarelo. O PT ganhou, mas não sobrou — venceu por margem estreita, mesmo com Lula surfando o auge da popularidade nacional. Agora, com a oposição se reorganizando e figuras como ACM Neto mantendo forte presença no debate público, o jogo muda de tom. O interior, que sempre foi o coração pulsante das vitórias petistas, começa a se inclinar para alternativas, percebendo que o discurso do “projeto que transformou a Bahia” já soa repetitivo quando o asfalto não chega, o hospital não atende e o jovem não encontra oportunidades.
O recado de Quinho é político, mas também simbólico: o PT precisa voltar às bases. Não apenas às bases eleitorais, mas às bases éticas e sociais que o ergueram. É preciso retomar o diálogo com prefeitos, lideranças comunitárias, trabalhadores e movimentos populares — não por conveniência eleitoral, mas por sobrevivência política.
Se o partido quiser seguir governando a Bahia, terá de reinventar-se. A lealdade automática das urnas já não existe. O eleitor baiano amadureceu, e com ele veio a exigência de novas narrativas, novas práticas e uma gestão que inspire confiança.
Como bem pontuou Quinho, o pós-Carnaval de 2026 será o divisor de águas. Até lá, o governo Jerônimo terá que mostrar mais do que obras herdadas: terá que mostrar propósito.
A eleição será dura, sim — mas será justa. Porque a democracia tem essa virtude: mais cedo ou mais tarde, faz o poder prestar contas ao tempo.




