Política e Resenha

Editorial | A Barragem do Esquecimento

 

 

Quando o triunfo vem com vinte anos de atraso

Há quem diga que a política é feita de memória curta. Talvez por isso, ao acompanhar a recente visita de um deputado da região à obra da Barragem do Rio Catolé — ao lado do governador Jerônimo Rodrigues —, muitos conquistenses tenham sentido um misto de espanto e indignação. Com semblante de fiscal da coisa pública, o parlamentar descreveu com entusiasmo o avanço da construção, exaltando a “grande obra” como solução definitiva para a crise hídrica de Vitória da Conquista. Chamou-a de “histórica”. E, de fato, é. Mas não pelos motivos que ele gostaria que acreditássemos.

A barragem é histórica porque carrega consigo o peso de duas décadas de promessas não cumpridas. Sua concepção remonta ao início dos anos 2000, quando nossos filhos ainda brincavam de carrinho e boneca — hoje, muitos deles já são pais. A previsão inicial era de conclusão em 2022. Entre licitações emperradas, gestões que se sucederam e silêncios convenientes, o projeto ficou paralisado por cerca de três anos, como se fosse um tema proibido, um tabu político que ninguém ousava tocar.

Durante esse período de inércia, nenhum discurso inflamado ecoou à beira do canteiro abandonado. Nenhuma coletiva de imprensa foi convocada para explicar o porquê da estagnação. Nenhuma visita técnica foi televisionada. O povo, mais uma vez, ficou à margem — literalmente — da água que não vinha.

Agora, com as máquinas novamente em movimento e apenas 30% da obra concluída até março de 2025, assiste-se a uma tentativa de transformar o atraso em troféu. O que deveria ser motivo de autocrítica virou palanque. O que era para ser um direito básico — o acesso à água — é vendido como um presente, um feito heróico.

O deputado, em sua fala, destacou a construção de uma nova adutora, a ampliação da infraestrutura de distribuição e a promessa de segurança hídrica para os próximos 30 ou 40 anos. Mas esqueceu de mencionar que essa mesma promessa foi feita aos nossos pais, lá atrás, no início do século. E agora, resta a dúvida: será que nossos filhos verão a conclusão daquilo que nos foi prometido?

Não se trata de negar a importância da obra. Pelo contrário: ela é vital. Mas é justamente por isso que não pode ser tratada como moeda de propaganda. A água que falta nas torneiras não se sacia com discursos. A confiança do povo não se reconstrói com placas inaugurais.

A barragem do Catolé é, sim, um marco — da demora, da negligência e da memória seletiva. Que ela seja concluída, e logo. Mas que também sirva de lembrete: o tempo da inocência acabou. E não aceitaremos mais que nos vendam como vitória aquilo que, por direito, já deveria ser realidade há muito tempo.