
(Padre Carlos)
Era madrugada.
A tela do computador me fitava em silêncio, como se também duvidasse do esforço que eu depositara nela. O artigo estava pronto — fruto de horas de pesquisa, revisões e reescritas. Cada frase, pesada com cuidado entre a clareza e a profundidade. E, quando finalmente foi publicado, o retorno foi aquele que todo articulista conhece: poucas visualizações, poucos compartilhamentos, aquele silêncio digital que parece sussurrar: valeu a pena?
Foi então que me lembrei de Ayrton Senna.
Não para comparar ofícios, mas para buscar sentido em suas palavras que atravessam o tempo e tocam a alma de quem se recusa a desistir. Senna disse certa vez:
“Não desista na primeira vez, nem na segunda, nem na terceira. Continue tentando. E continue fazendo as coisas que só você sabe fazer, mesmo quando ninguém mais sabe como fazer.”
Essa frase, simples e poderosa, é quase uma oração para quem cria, escreve, constrói. Porque há dias em que tudo parece conspirar contra. Em que o esforço parece não bastar. E é justamente nesses dias que a voz de Senna ecoa como um lembrete de que a persistência também é uma forma de fé.
Como articulista, vivo a contradição dos tempos digitais: nunca foi tão fácil publicar, e nunca foi tão difícil ser realmente lido. A internet nos deu voz, mas criou um oceano de vozes. Cada texto é uma gota em meio a ondas de conteúdos instantâneos — muitos feitos não para provocar pensamento, mas para provocar cliques.
E aí vem a tentação: será que não seria melhor simplificar? Ceder ao sensacionalismo? Transformar reflexão em manchete?
Mas então penso novamente em Senna. Ele poderia ter se conformado em ser apenas mais um piloto rápido e eficiente. Mas não. Escolheu arriscar, tentar, insistir — e continuar fazendo aquilo que só ele sabia fazer. Mesmo quando ninguém mais sabia como. Essa entrega absoluta é o que o tornou eterno.
Cada leitor tocado já vale a pena.
Essa é a frase que repito a mim mesmo.
Porque se apenas uma pessoa encontrar, nestas linhas, o alento que precisava; se um único leitor pausar a correria para pensar, sentir ou refletir — então o texto cumpriu seu propósito.
Vivemos obcecados por métricas: likes, visualizações, seguidores. Mas esquecemos de medir o que realmente importa — o impacto. Um texto que alcança mil pessoas superficialmente vale mais que um que transforma dez profundamente?
A resposta, acredito, está no coração de quem escreve.
Senna não corria por estatísticas. Corria pela arte de cada curva, pela beleza de cada tentativa, pela busca de algo que só ele sabia fazer.
E é isso que me faz continuar escrevendo: a convicção de que qualidade não se mede em números, mas em profundidade.
Então, sim, vou seguir.
Mesmo com poucas visualizações. Mesmo com o silêncio das redes. Porque, como ensinou Senna, não se trata de desistir na primeira, na segunda ou na terceira vez — trata-se de continuar tentando, e de continuar fazendo o que só nós sabemos fazer.
E se você chegou até aqui, caro leitor, saiba que você faz parte desses poucos que tornam tudo valer a pena.
Você que leu até o fim, que parou no meio da pressa, que ouviu em silêncio — é por você que sigo.
Porque, no fim, escrever é isso: insistir.
Mesmo quando ninguém mais sabe como.




