Política e Resenha

ARTIGO – Quando os gigantes partem e o tempo se torna memória

 

 

Era quase meia-noite quando a notícia atravessou a tela do celular como um golpe seco na consciência. Raul Ferraz havia partido. Sentei-me diante do computador com aquela sensação incômoda de quem precisa transformar a dor em palavras, o luto em registro, a memória viva em texto. As mãos tremiam sobre o teclado — não de cansaço, mas da certeza de que estava diante de um daqueles momentos em que a história pessoal e a história coletiva se cruzam, fazendo da notícia um testamento involuntário de uma época inteira.

Escrever sobre a morte de Raul Ferraz não é apenas narrar o fim de uma vida generosa e dedicada ao serviço público. É reconhecer, com a lucidez melancólica de quem contempla um rio levando folhas secas, que com ele se vai também um pedaço irreparável da memória política de Vitória da Conquista. E não apenas dele — mas de toda uma geração que acreditou, com fervor quase religioso, no poder transformador da política como instrumento de dignidade humana.

Jadiel já não está mais entre nós. Pedram também partiu. Tião nos deixou em silêncio. Murilo seguiu o mesmo caminho. E agora Raul. Um por um, os gigantes que moldaram a democracia conquistense vão sendo levados pelo tempo, esse ladrão gentil que rouba as presenças, mas não consegue apagar as marcas. O que presenciamos não é apenas uma sucessão de falecimentos — é o encerramento de um ciclo civilizatório, o fim de uma era onde a política ainda carregava o peso sagrado da missão pública.


A geração que construiu a cidade moderna

Raul Ferraz pertencia àquela estirpe rara de homens públicos que entendiam a liderança não como palco de vaidades, mas como arena de serviço. Sua gestão à frente da prefeitura de Vitória da Conquista não foi marcada por obras faraônicas ou promessas grandiosas, mas pela dedicação meticulosa ao cotidiano da cidade — aquele trabalho discreto e persistente que constrói hospitais, pavimenta ruas, ilumina becos, organiza o caos urbano e devolve dignidade aos esquecidos.

Ele e sua geração compartilhavam uma visão hoje quase extinta: a de que a política era o espaço privilegiado da construção coletiva, onde diferenças ideológicas não anulavam o respeito mútuo, onde adversários podiam ser também interlocutores, onde o debate público não se confundia com linchamento moral. Eram homens forjados na luta pela redemocratização, que carregavam na alma as cicatrizes da ditadura e a esperança renovada de uma sociedade mais justa.

O legado histórico dessa geração está escrito nas calçadas por onde hoje caminhamos, nas escolas onde crianças aprendem a ler o mundo, nos postos de saúde que ainda resistem ao desmonte, na infraestrutura urbana que sustenta o dia a dia de milhares de conquistenses. Mas está escrito, sobretudo, na memória afetiva de quem viveu aquele tempo — quando a política ainda inspirava confiança, quando líderes ainda eram chamados pelo nome de batismo, quando a palavra empenhada valia tanto quanto um contrato assinado.


O tempo como rio e como escultor

Há algo de trágico e belo no modo como o tempo nos trata. Ele não destrói apenas — ele seleciona. Leva embora os corpos, mas preserva os gestos que importam. Apaga rostos, mas mantém intactas as decisões que mudaram destinos. E quando homens como Raul Ferraz partem, o que fica não é apenas saudade — é gratidão histórica.

A morte de Raul nos obriga a olhar para trás e perguntar: o que fizemos com o legado que nos foi confiado? A democracia conquistense que eles ajudaram a erguer continua sendo cuidada com o mesmo zelo? A política local ainda abriga sonhadores e construtores, ou foi tomada por oportunistas e mercadores? Vitória da Conquista, essa cidade que cresceu sob o olhar atento desses homens, ainda guarda o espírito público que eles tentaram semear?

Não se trata de idealizar o passado ou romantizar uma geração que, como toda geração, teve suas contradições e limites. Trata-se de reconhecer que havia ali uma dignidade no exercício do poder — uma ética do cuidado, uma disposição para o sacrifício pessoal em nome do bem comum — que parece cada vez mais rara nos tempos de espetacularização da política e de redução da coisa pública a palco de egos inflados.


A memória como resistência

Escrevo estas linhas ainda sob o impacto da notícia, mas também movido pela certeza de que cabe aos que ficam a tarefa de manter acesa a chama da memória. Porque a memória não é nostalgia vazia — é instrumento de luta. Lembrar de Raul Ferraz, de Jadiel, de Pedram, de Tião, de Murilo e de tantos outros é lembrar também de um projeto de cidade e de sociedade que não pode ser esquecido.

É lembrar que política pode ser, sim, espaço de nobreza. Que liderança verdadeira se mede não pelos holofotes que busca, mas pelas sombras que ilumina. Que o serviço público não é privilégio a ser usufruído, mas dívida a ser honrada. Que a democracia é construção diária, exigente e incômoda, que cobra de cada um de nós a coragem de estar à altura dos desafios do tempo.

Quando os gigantes partem, a responsabilidade dos que ficam se torna ainda maior. Porque o tempo não para — ele segue como rio, indiferente aos nossos lamentos. Mas cabe a nós decidir se seremos apenas espectadores passivos de sua correnteza ou se teremos a ousadia de lançar, nesse mesmo rio, as sementes de um futuro digno dos que nos antecederam.

Raul Ferraz partiu. Mas sua memória política permanece como farol e como cobrança. Que saibamos estar à altura do legado que nos deixou. Que tenhamos a coragem de não permitir que o cinismo e o oportunismo tomem o lugar que um dia foi habitado por homens de bem.

A história viva de Vitória da Conquista está escrita também com o nome desses gigantes. E enquanto houver quem lembre, enquanto houver quem conte, enquanto houver quem se inspire — eles não terão partido por completo.

Descanse em paz, Raul Ferraz.
E que sua geração seja eternamente lembrada como aquela que, em tempos difíceis, escolheu construir em vez de destruir, unir em vez de dividir, servir em vez de se servir.


(Padre Carlos)
Vitória da Conquista, na noite em que os gigantes partem e a memória se faz resistência.