Política e Resenha

ARTIGO – A DOR QUE O PALÁCIO NÃO OUVE

 

(Padre Carlos)

Há uma dor que ecoa nos becos do Rio de Janeiro e que os salões acarpetados de Brasília fingem não escutar. É a dor das famílias honestas que acordam antes do sol, descem o morro com o coração apertado e voltam tarde da noite, gratas apenas por estarem vivas. São essas mulheres e homens — invisíveis aos olhos do poder — que sustentam o país: a doméstica que limpa as casas dos senhores deputados, o jardineiro que cuida das flores do governador, o motorista que leva os filhos dos poderosos à escola. São eles os verdadeiros alicerces da nação.

E, no entanto, quando alguém se levanta em defesa deles, vem o coro hipócrita de sempre: “estão defendendo bandidos”. Não, senhores e senhoras do Congresso Nacional, quem defende o povo não defende o crime — defende a vida. Defende a dignidade de quem não pode morar nos palácios porque nasceu do lado errado do asfalto. Defende o direito humano mais básico: o de existir sem medo da polícia que atira primeiro e pergunta depois.

Foram mais de 64 mortos em operações recentes nas comunidades do Rio de Janeiro — e todos sabemos que o número real é maior. Morreram jovens, trabalhadores, pais de família. Morreram porque o Estado confundiu território pobre com território inimigo. E o governador Cláudio Castro, que deveria chorar com seu povo, escolheu a frieza dos relatórios e a retórica da força. Fala em “segurança pública”, mas o que entrega é violência policial, impunidade e dor.

Enquanto isso, o Tribunal Superior Eleitoral se prepara para julgar as ações que podem cassar Cláudio Castro e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, por uso eleitoral de servidores do Ceperj. O escândalo expõe o mesmo vício de sempre: a máquina do Estado usada como trampolim de poder, o dinheiro público transformado em moeda de barganha. Isso não é política — é corrupção institucionalizada.

E diante dessa perversidade, como calar? Eu, que há 65 anos vejo este país se reinventar em tragédias e esperanças, confesso o cansaço, mas não a desistência. Já não moro no Nordeste: O Complexo do Nordeste de Amaralina é uma área de Salvador, formada por quatro bairros: Nordeste, Chapada do Rio Vermelho, Vale das Pedrinhas e Santa Cruz, com aproximadamente 80 mil habitantes e que tem as mesmas caracteristicas das favelas do Rio de Janeiro.  Mas o Nordeste continua morando em mim. Eu sei o que é chorar um filho baleado, o que é ver um inocente arrastado pela lama da indiferença. Sei o que é sentir vergonha de quem governa em nome do povo, mas não conhece o povo.

O Brasil precisa recuperar o sentido de justiça social, a chama da cidadania e da democracia verdadeira — aquela que não se mede pelo número de votos, mas pelo respeito à vida. Porque a verdadeira violência não está nos becos, mas nos gabinetes. Não nasce no barraco, mas nas canetas que assinam ordens de morte.

Enquanto houver uma mãe enterrando seu filho sem respostas, não haverá paz possível. Enquanto o Congresso Nacional aplaudir governantes que fazem do sangue uma estatística, não haverá moral. Que cada um de nós, do alto ou do morro, sinta essa dor como sua. Porque quando o povo sofre, é a própria nação que sangra.

E quem sangra com o povo, este sim, entende o que é ser humano.