Política e Resenha

O Sobrado Nestor Fonseca e o Silêncio das Paredes Antigas

 

 

 

(Padre Carlos)

Há casas que respiram. E há outras que, quando deixadas ao abandono, passam a sussurrar. O Sobrado Nestor Fonseca, um dos mais antigos de Vitória da Conquista, é uma dessas vozes caladas pelo tempo — um testemunho de barro, madeira e história que, agora, corre o risco de desaparecer sob o peso do esquecimento e da especulação imobiliária.

Situado na Rua Eduardo Dalton, no coração do Alto Maron, o sobrado atravessou o século XX como um marco da urbanização conquistense. Erguido em adobão, quando a cidade ainda era uma promessa de futuro, ele foi lar, pomar, refúgio e, sobretudo, símbolo. Ali viveram memórias que precedem o asfalto, os postes e os automóveis; memórias que fundam o sentido de pertencimento de um bairro e de uma comunidade.

Mas o que fazemos com nossas raízes quando o lucro fala mais alto?
O imóvel — que já foi indicado para tombamento municipal em 2011 pelo então vereador Álvaro Pithon — nunca recebeu a proteção devida. Agora está à venda, exposto ao risco de demolição, entregue à lógica fria de quem vê apenas o terreno, não a história. E com isso, Vitória da Conquista se aproxima de mais um crime cultural: o apagamento do que resta de seu patrimônio arquitetônico.

O Sobrado Nestor Fonseca é mais que uma casa antiga. É um espelho de quem fomos. Um registro físico de um tempo em que se construía com as próprias mãos, em que o adobe e a madeira formavam não apenas paredes, mas vínculos. Cada janela — oito ao todo — olha para o passado e pergunta se ainda há quem escute.

Deixar que esse imóvel se perca é rasgar uma página da história local, é renunciar à própria identidade. Quando uma cidade destrói seus monumentos, ela destrói também o seu sentido de continuidade.
Quem somos, afinal, sem o traço da memória?
O patrimônio histórico não é luxo — é raiz, é referência, é alma coletiva.

É urgente que o poder público, especialmente o Conselho Municipal de Cultura e o IPAC, atuem para impedir que mais uma parte da nossa memória seja reduzida a entulho. E é urgente, também, que a sociedade conquistense compreenda que o passado não é um obstáculo ao progresso, mas o alicerce dele.

O Sobrado Nestor Fonseca pede socorro. E talvez ainda haja tempo de ouvi-lo, antes que o silêncio se torne definitivo.