(Padre Carlos)
Há uma linha tênue — e perigosamente tênue — entre a denúncia responsável e a insinuação maldosa. Quando um representante do povo, investido do poder que o voto lhe conferiu, decide usar a tribuna não para apresentar provas, mas para lançar suspeitas, o que está em jogo já não é apenas um embate político: é a própria dignidade da democracia.
Foi o que se viu recentemente em Poções, no sudoeste baiano, quando um vereador, destilando malícia e sem apresentar um único documento concreto, insinuou que um deputado da região estaria envolvido em irregularidades. Nada foi provado, tudo foi dito nas entrelinhas — e o veneno da dúvida foi lançado ao vento.
A política não pode ser palco para a covardia verbal, nem abrigo para quem confunde retórica com calúnia. As palavras têm peso, e em tempos de redes sociais e julgamentos instantâneos, uma frase irresponsável é capaz de destruir reputações construídas ao longo de décadas. Atribuir a alguém um crime sem provas não é bravura, é covardia.
Vivemos dias em que o sensacionalismo tenta se sobrepor à verdade. É fácil transformar uma suspeita em manchete, difícil é reparar o dano moral que ela causa. E quando isso parte de um agente público, o caso é ainda mais grave — porque o mandato não confere o direito de ofender, mas a obrigação de ser exemplo.
Se há irregularidades, que se investigue. Se há documentos, que se apresentem. Mas não se pode aceitar que a tribuna vire palanque de insinuações. A democracia se sustenta na verdade, não no achismo; na transparência, não na maledicência.
O que o vereador fez — insinuando, sem coragem de afirmar, sem coragem de provar — é um gesto antiético e antidemocrático. A liberdade de expressão é um pilar da República, mas ela não é licença para difamar. O homem público sério fala com base em fatos, não em boatos.
Aqueles que lançam sombras sobre os outros sem provas esquecem que um dia a luz da verdade também os alcançará. E, nesse dia, a máscara da moral seletiva cairá, revelando o que de fato são: oportunistas travestidos de justiceiros.





