
Por Padre Carlos
Há palavras que não são apenas ditas — são cravadas. Quando o presidente Lula chamou de “matança” a operação policial no Rio de Janeiro, não fez apenas um juízo de valor: lançou uma pedra no espelho da hipocrisia nacional. O termo incomodou porque rompeu o pacto tácito de silêncio que costuma proteger a brutalidade sob o manto da “segurança pública”.
Entre o verbo e a bala
No Brasil, o verbo é sempre mais vigiado que a bala. Quando o Estado mata dezenas em favelas, fala-se em “confronto”, “ação necessária”, “combate ao crime”. Quando o presidente ousa nomear o que se viu — corpos caídos, mães desesperadas, vidas descartadas — a elite se escandaliza. O incômodo não está no sangue derramado, mas em quem ousa dizer seu nome.
A palavra “matança” é incômoda porque devolve humanidade às vítimas. Obriga o país a olhar o abismo que prefere ignorar. É o mesmo abismo que separa as zonas nobres dos becos encharcados de medo, onde o Estado chega apenas em forma de caveirão.
O espelho baiano
Na Bahia, sob governo petista, uma operação semelhante terminou com dezenas de presos e apenas um morto. A comparação escancara o que se tenta esconder: é possível combater o crime sem transformar o asfalto em cemitério. O secretário baiano Felipe Freitas disse o óbvio que tantos calam — “houve opção pelo confronto”. Sim, sempre há escolha. O que falta é vontade de escolher a vida.
A guerra das narrativas
A reação da oposição foi previsível: acusar o presidente de “defender bandidos”. É o velho roteiro eleitoral brasileiro, onde a empatia vira fraqueza e a compaixão, cumplicidade. Lula tentou equilibrar-se entre a ética e o pragmatismo, mas sua fala, ainda que politicamente arriscada, acendeu o debate mais necessário: o da dignidade humana em tempos de medo.
Há quem diga que o presidente se equivocou. Eu digo que, pela primeira vez em muito tempo, alguém chamou o horror pelo nome certo.
O dilema da esquerda
A esquerda brasileira ainda caminha sobre cacos de vidro quando o assunto é segurança pública. Defende direitos humanos, mas teme perder votos; denuncia o abuso, mas hesita diante do pânico coletivo. Enquanto isso, a direita se alimenta do medo, transforma a morte em política e o ódio em projeto de poder.
Conclusão
Chamar de “matança” o que é matança não é radicalismo, é lucidez. A democracia se mede também pela coragem de encarar seus monstros — inclusive aqueles que vestem farda e falam em nome da lei. O Brasil precisa decidir se quer um Estado que proteja a vida ou um Estado que a conte em estatísticas.
No fim, a palavra de Lula ecoa não como erro, mas como denúncia. Porque há momentos em que calar é cúmplice, e dizer é o único ato de justiça possível.




