
A Bahia vive um paradoxo em segurança pública que pode ser ilustrado por uma simples análise geográfica: na mesma região do Sudoeste baiano, cidades sob jurisdições policiais distintas apresentam resultados diametralmente opostos. Enquanto Vitória da Conquista celebra uma redução histórica de 53,7% nos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), alcançando a menor taxa de homicídios entre as capitais e grandes cidades baianas (7,9 por 100 mil habitantes), outras localidades da região ainda patinam em índices alarmantes.
O Modelo Conquistense: Quando a Integração Funciona
O caso de Vitória da Conquista não é fruto do acaso nem de milagres estatísticos. É resultado de uma combinação virtuosa entre comando militar experiente, gestão municipal eficiente e integração real entre as forças de segurança. O Coronel Paulo Guimarães, comandante do CPR-Sudoeste, tem razão ao destacar que o foco em inteligência policial e a capacitação constante da tropa foram decisivos. Mas seria ingênuo ignorar o papel fundamental da Prefeitura e da Guarda Municipal nessa equação.
A prefeita local compreendeu algo que muitos gestores ainda resistem em aceitar: segurança pública não é responsabilidade exclusiva da Polícia Militar. A presença de uma Guarda Municipal estruturada e a assessoria experiente do Coronel Ivanildo criaram um ecossistema de proteção que vai além do policiamento ostensivo. Trata-se de presença permanente nas ruas, conhecimento do território e, sobretudo, legitimidade local.
Jequié: O Exemplo da Fragmentação
No extremo oposto dessa realidade, Jequié representa o retrato do que não funciona. Embora recentemente tenha sido contemplada com seu próprio comando regional, a cidade amarga anos de negligência estrutural. Estar subordinada a comandos distantes significou, na prática, ser tratada como prioridade secundária. Recursos, efetivo e atenção estratégica sempre chegavam depois — quando chegavam.
A criação de três novos comandos regionais pela Lei 14.962 é um reconhecimento tácito desse problema. Ao redistribuir 32 municípios do CPR-Sudoeste para novos comandos, o governo estadual admite que centralizar demais é comprometer resultados. Jequié, que finalmente terá comando próprio sediado em sua área, exemplifica como a distância do centro decisório compromete a eficácia policial.
As Contradições de Um Sistema Dual
O modelo de policiamento na Bahia — e no Brasil — carrega uma contradição estrutural: enquanto a Polícia Militar é estadual, a gestão urbana e a convivência comunitária são municipais. Essa fragmentação cria vazios de responsabilidade e dificulta a integração necessária. Conquista mostra que quando prefeito, comandante militar e sociedade civil trabalham alinhados, os resultados aparecem. Mas isso depende mais de voluntarismo e lideranças pessoais do que de estruturas institucionais sólidas.
A assessoria do Coronel Ivanildo em Conquista não é um cargo formal previsto em lei, mas uma articulação política inteligente. Quantas cidades baianas têm acesso a esse tipo de expertise? Quantas prefeituras conseguem estabelecer canais diretos e produtivos com os comandos militares? A resposta expõe a fragilidade do modelo: o que funciona em Conquista é difícil de replicar porque depende de pessoas, não de processos.
O Desafio da Equidade Regional
A reorganização dos comandos regionais é um passo importante, mas insuficiente. Não basta criar novos comandos se não houver investimento proporcional em efetivo, equipamento e formação. O risco é substituir a centralização excessiva por uma descentralização precária, onde comandos regionais operam com recursos limitados e sem capacidade de resposta adequada.
Jequié merece ter as mesmas condições que Conquista para desenvolver seu modelo de segurança. Isso significa não apenas um comando próprio, mas também o fortalecimento da guarda municipal, a integração com a gestão urbana e o acesso a experiências bem-sucedidas. A presença do Coronel Ivanildo em Conquista deveria ser estudada, sistematizada e transformada em política pública replicável.
Conclusão: Segurança Não É Sorteio Geográfico
O cidadão que nasce ou mora em Vitória da Conquista não deveria ter direito a mais segurança do que aquele que vive em Jequié, Itabuna ou qualquer outro município baiano. A segurança pública não pode ser uma loteria geográfica, onde ter um bom comandante, uma prefeita eficiente ou um assessor experiente seja exceção celebrada, e não regra garantida.
Os resultados distintos no Sudoeste baiano não são apenas números em tabelas policiais. São vidas salvas de um lado e lutos evitáveis de outro. São famílias que dormem tranquilas versus comunidades reféns do medo. São modelos que funcionam coexistindo com estruturas que fracassam — na mesma região, no mesmo estado, sob o mesmo governo.
A Bahia precisa aprender com Conquista, mas principalmente precisa questionar: por que o que funciona ali ainda é exceção e não padrão? Enquanto não respondermos a essa pergunta com políticas públicas concretas, continuaremos celebrando ilhas de sucesso em meio a um oceano de insegurança.




