Política e Resenha

ARTIGO – Quando o Roubo Toma o Nome do ex-presidente do INSS

 

 

(Padre Carlos)

Há crimes que ferem o bolso — e há crimes que ferem a alma de um povo. O escândalo que envolve o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, é desses que ultrapassam os limites da corrupção comum. É o tipo de crime que insulta a dignidade dos aposentados, que humilha os que trabalharam uma vida inteira acreditando no amparo do Estado e que expõe, com brutal clareza, a podridão moral entranhada nas estruturas do poder.

Segundo a Polícia Federal, o esquema funcionou por cinco longos anos — de 2019 a 2024 — drenando bilhões de reais do bolso de quem mais precisava. Bilhões! Não estamos falando de cifras abstratas. Estamos falando do dinheiro de remédios, de cestas básicas, de consultas médicas, de gás de cozinha. Cada centavo desviado era um golpe contra um idoso, uma viúva, um trabalhador que acreditava que, ao se aposentar, enfim descansaria das fadigas da vida.

O esquema, batizado de Operação Sem Desconto, ironicamente se sustentava com descontos ilegais nas aposentadorias e pensões. Criava-se, nos sistemas do INSS, falsos cadastros, associações fantasmas, cobranças indevidas. Tudo operado com precisão técnica e fria, por quem conhecia os atalhos do sistema — e se aproveitou disso.

E o mais estarrecedor: quem chefiava o órgão responsável por proteger os aposentados era o mesmo que, segundo as investigações, se beneficiava do saque aos vulneráveis. Stefanutto, nomeado com o aval de ministros e partidos políticos, transitou por governos, por legendas e gabinetes com a mesma naturalidade com que, agora, responde por corrupção ativa, passiva, estelionato previdenciário e dilapidação patrimonial.

É revoltante ver que o país continua a ser refém de uma elite administrativa que usa a máquina pública como balcão de negócios. A cada novo escândalo, o povo é chamado a assistir, impotente, a mais um espetáculo de cinismo. O aposentado, que sobrevive com um salário mínimo, não tem assessoria jurídica, não tem advogado, não tem voz. É ele quem sente o golpe direto na veia — é dele que o Estado deveria ser guardião.

O ministro da Controladoria-Geral da União, Vinícius de Carvalho, revelou que as entidades envolvidas anunciavam descontos em academias e planos de saúde que jamais existiram. Mentira institucionalizada. Farsa legitimada por contratos oficiais. Onze entidades foram alvo de medidas judiciais, mas e os responsáveis políticos? E os que indicaram, sustentaram e se beneficiaram desse sistema?

Não basta prender o operador do crime — é preciso atingir o coração do mecanismo que o protege. A corrupção previdenciária é um câncer que destrói a confiança do cidadão na República. É ela que faz o trabalhador olhar para o contracheque e sentir vergonha de ter acreditado que o Estado é justo.

A justiça, se for cega, que ao menos seja firme. Que pese a mão sobre os culpados. Que devolva, não apenas os bilhões desviados, mas a esperança de que ainda há decência nas instituições públicas. Porque enquanto o Brasil permitir que se roube do idoso, estaremos todos envelhecendo na humilhação.

Chega de desculpas, chega de silêncio. Que os culpados paguem — e que o país, enfim, aprenda que a Previdência não é uma mina de ouro para políticos e burocratas, mas o último abrigo de um povo cansado, enganado e traído.