Política e Resenha

ARTIGO – Elomar: O Arquitetar das Vozes Ancestrais do Sertão

 

 

 

Padre Carlos

Elomar não é apenas um compositor. É uma forma de arquitetura sonora. Formado em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia em 1964, ele transportou para a música o mesmo rigor formal, a mesma capacidade de erguer estruturas sólidas e ao mesmo tempo poéticas. Quem escuta sua obra percebe que cada canção é um alpendre, cada acorde é um tijolo assentado à mão, cada verso é viga, cada melodia é parede que sustenta um mundo esquecido.

Não há no Brasil nada comparável ao que Elomar faz. Não porque faltam talentos — mas porque falta quem desça tão fundo às raízes que o próprio país esqueceu que tem. Ao ouvir Seresta Sertaneza, do álbum Cartas Catingueiras (1982), somos arrancados do presente e jogados em um sertão que não é apenas geografia: é tempo mítico. É Idade Média no coração da Caatinga. É trovador caminheiro atravessando veredas que só existem na memória dos velhos e no inconsciente coletivo de um povo que carrega, mesmo sem saber, símbolos ancestrais de eras que nunca viveu.

A linguagem de Elomar é erudita porque bebe dos modos antigos da lírica medieval, dos cantos trovadorescos, da epopeia que narra heróis humildes e destinos duros. Mas é também popular, porque nasce do chão de barro, da fala arcaica dos vaqueiros, do romance sertanejo que resiste ao tempo. A beleza de sua obra está justamente nesse ponto de encontro: o artista que transforma o sertão em ópera, que transforma o camponês em cavaleiro, que devolve ao Brasil uma Idade Média que nunca o Brasil estudou — mas que vive como mito, escondida nas camadas profundas do ser.

Elomar é arquiteto não apenas porque estudou Arquitetura, mas porque constrói universos. Levanta pontes entre o medieval e o sertanejo, entre o erudito e o popular, entre o inconsciente e a história. Enquanto muitos correram atrás da modernidade rasa, ele voltou-se para dentro e encontrou o Brasil profundo — esse Brasil que não cabe em slogans, nem em hashtags, mas que pulsa na memória coletiva de um povo que guarda as vozes dos avós como cantigas.

Sua obra é tribunal e templo; é galpão e catedral. É sertão transfigurado em arte maior. Ali estão os cavalos, os aboios, as veredas, a penumbra das noites de lua, mas também a métrica perfeita, a harmonia sofisticada, a construção melódica que poucos no país dominam. Elomar não imita o passado: ele o convoca. Ele faz da música um rito que desperta aquilo que Jung chamaria de símbolos universais — arquétipos que nos roubam da pressa e nos devolvem ao que somos de fato.

Por isso sua arte não passa. Não é moda. Não é tendência. É permanência. É raiz. É a lembrança de um Brasil que continua vivo, mesmo quando o próprio Brasil tenta esquecê-lo. Escutar Seresta Sertaneza é entrar na casa dos antigos, é pisar no terreiro da alma onde o sertão e a Idade Média conversam sem esforço, porque ambos tratam daquilo que nunca muda: o homem, sua luta, sua fé, sua beleza trágica.

Quando Elomar canta, o sertão não é cenário: é destino. É memória. É mito. E é também a mais profunda revelação de que o Brasil tem uma grandeza estética que ainda não compreendeu.