
Padre Carlos
Os Correios não caminham para a crise: já estão dentro dela, sufocados por décadas de má gestão, burocracia paralisante e uma cúpula política que sempre enxergou a estatal como trincheira partidária, nunca como patrimônio estratégico. A crise dos Correios não é obra do acaso; é colheita amarga de quem tratou o serviço público como feudo, loteando cargos, criando distorções internas e permitindo que vícios administrativos se acumulassem como ferrugem sobre uma máquina que um dia foi orgulho nacional.
Enquanto o setor privado corria com modernização digital, rastreamento inteligente, inteligência logística e parcerias de alto desempenho, os Correios continuavam tentando sobreviver com estruturas pesadas, analógicas, presas a um modelo de gestão pública pensado para outro século. O resultado está aí: prejuízos de bilhões por trimestre, uma empresa que sangra, e um debate público que demora demais a reconhecer o óbvio — ou se reconstrói a estatal, ou o país assiste à sua extinção lentamente, como quem observa uma casa desabar em câmera lenta.
Mas há responsabilidades que ninguém gosta de citar. Parte dos sindicatos, historicamente importantes, abraçaram um corporativismo que só enxerga a própria bolha. Uma gestão sindical que protege privilégios insustentáveis, planos de saúde irreais para o orçamento atual e benefícios que, somados à queda brutal de receita, criam a fórmula perfeita para o colapso. É como sempre digo: se matar a vaca, o leite acaba. E se não der os anéis agora, vão-se os dedos — e depois a cabeça. A logística brasileira inteira pagará por essa inércia.
Do outro lado, o governo federal insiste em discursos românticos enquanto a estrutura afunda. Defender os Correios não é discursar contra a privatização; é enfrentar o fato de que sem corte de desperdício, sem choque de gestão e sem investimento real em tecnologia, não há projeto possível. A soberania não se preserva com palavras — preserva-se com eficiência. E eficiência não existe onde imperam apadrinhamento, medo de mudanças e receio de contrariar alas corporativas.
E onde estavam todos esses defensores do “patrimônio público” quando corrupção, contratos duvidosos, desperdício e obras mal planejadas corroíam o coração da estatal? Onde estavam quando centros de distribuição sucateados atrasavam entregas e empurravam empresas e consumidores para concorrentes privados? O silêncio cúmplice de ontem produz a urgência dramática de hoje.
Se nada mudar, o que virá será mais do que demissão em massa: será a entrega da soberania nacional a monopólios privados que já disputam o mercado com apetite voraz. A estatal que poderia ser protagonista da integração logística do país corre o risco de tornar-se peça de museu. É o Brasil que perde. É cada cidadão que depende do serviço público que perde. É a identidade nacional que vai sendo desmontada sem que muitos percebam.
A decisão é dura, mas é simples: ou se corta na carne agora, ou se autoriza o enterro de uma das instituições mais simbólicas da nossa história. O tempo da complacência acabou. O país precisa superar a política do empurra-com-a-barriga e admitir que reconstruir é tão urgente quanto doloroso. É a última chance antes do naufrágio definitivo.




