Política e Resenha

ARTIGO – O amigo dos tempos de chumbo. (Padre Carlos)

 

– O Peso da Memória que os Anos Não Conseguem Carregar
Padre Carlos

Há encontros que não são encontros — são espelhos rachados nos quais vemos o que fomos e o que deixamos de ser. Assim foi naquela noite em que a vida, caprichosa como sempre, me colocou diante de um homem que parecia saber mais de mim do que eu mesmo.

Você não se lembra mais de mim!

Não era uma pergunta. Era uma acusação. Um veredito. A sentença fria dos anos cobrando o pedágio do esquecimento.
Diretório Acadêmico. Corrente Caminhando. As assembleias, as brigas, os cantos, as promessas de que o país seria outro porque nós seríamos outros. A juventude tem desses delírios — e ainda bem que tem, ou nada grandioso jamais teria sido sonhado.

Mas a verdade é que eu não me lembrava dele. Não por inteiro.
Talvez porque ninguém se lembra de ninguém por inteiro.
Talvez porque, ao contrário do que a nostalgia gosta de fingir, o passado não é um baú, é um grande vazamento.

E, no entanto, havia os olhos. Aquele olhar que parecia ter sobrevivido a tempestades que eu desconhecia. Olhos que carregavam um pouco do fel engarrafado das derrotas políticas, das utopias engolidas pela vida adulta, do cansaço de quem passou décadas cobrando do futuro promessas que o futuro nunca assinou.

Ele me lançava nomes como dardos — antigos companheiros, velhas trincheiras, mesas de bar onde planejávamos revoluções com o entusiasmo barato da cerveja e a coragem infinita da juventude. Ele lembrava de tudo. Eu, quase de nada.

Tive vontade de lhe dizer que o mundo é grande demais para caber na memória de um homem só. Que mesmo os amores mais ardentes se afrouxam no tempo. E que os companheiros de luta… ah, esses se dispersam como pássaros assustados quando o combate termina.

Mas ele estava sóbrio.
E a sobriedade não perdoa ninguém — cobra coerência, cobra fidelidade, cobra uma memória que os anos não conseguem carregar.

No tribunal dos afetos, eu era culpado.
Culpado por esquecer quem não me esqueceu.
Culpado por seguir em frente quando ele ficou guardando, como relíquia, aquilo que para mim era apenas um capítulo.

Ele se apresentou. Francisco.
Um nome que já me pertenceu um dia, mas que hoje pesa como um fantasma sobre minhas lembranças esburacadas. Abracei-o com a ternura que se abraça um sobrevivente. Pedi desculpas que ele merecia ouvir — mesmo que não fossem por esquecimento, mas pela insistência cruel da vida em não permitir que tudo permaneça.

Se eu pudesse — e não podia — teria ficado para dizer-lhe que a falha não está em esquecer.
A falha está em exigir que o tempo seja fiel aos monumentos sentimentais que construímos na juventude.

Os amigos dos anos de chumbo, reencontrados após a queda da tempestade, não encontram mais o inimigo comum. Encontram-se apenas uns aos outros — velhos, cansados, gastos. Não são mais soldados da madrugada. São testemunhas do próprio passado.

Só sobreviveria intacta a amizade da militância se tivéssemos preservado intacta também a luta:
o cheiro das manhãs ousadas,
os muros rabiscados,
os panfletos amassados no bolso,
o grito rouco das assembleias
e a coragem feroz de acreditar.

Mas tudo isso ficou pelo caminho.
O tempo, esse inimigo silencioso, ninguém marchou para enfrentar.
E diante dele, todos nós perdemos — alguns porque esqueceram, outros porque lembram demais.

Porque memória… memória não é fidelidade.
Memória é apenas isso:
o modo como sobrevivemos ao que não soubemos guardar.