Política e Resenha

ARTIGO – Novembro Negro: quando Zumbi, a Capoeira e a Consciência Racial ocupam o Parlamento

 

 

 Padre Carlos

Há noites que não são apenas cerimônias: são gritos históricos interrompendo séculos de silêncio. A Sessão Especial da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, marcada para 19 de novembro, é uma dessas noites em que o Brasil profundo se apresenta — aquele que nasceu nos quilombos, resistiu nas senzalas, dançou na dor, lutou no corpo e sobreviveu no espírito. Novembro Negro não é apenas um mês: é memória, identidade, política pública e disputa por dignidade.

A entrega do Troféu Zumbi dos Palmares — símbolo da luta permanente contra o racismo estrutural — e do Troféu Paranauê — legado da capoeira enquanto arte, cultura, filosofia e resistência — sintetiza um país que ainda batalha para reconhecer seus heróis e suas raízes africanas. Em um momento em que discursos racistas voltam a circular com coragem no espaço público, ver o parlamento abrir suas portas para celebrar a negritude é um ato político. E um ato necessário.

Pe. Zenilton Dias dos Santos, o querido Pe. Monginho, é prova viva de que igualdade racial não se faz com discursos, mas com presença social e compromisso pastoral. Seu trabalho com juventudes periféricas, enfrentamento ao genocídio da população negra e fortalecimento da Pastoral Afro-brasileira revela que a fé pode — e deve — caminhar ao lado dos Direitos Humanos. Quando a religião se alia à justiça racial, o evangelho se torna libertador.

Da mesma forma, a homenagem ao professor e físico Jime Sampaio ecoa outro traço profundo da luta negra: o conhecimento como emancipação. Ao fortalecer o Novembro Negro no IFBA, ampliar projetos de leitura afro-brasileira e participar ativamente da formação de políticas públicas antirracistas, Jime demonstra que a sala de aula ainda é um dos mais poderosos quilombos contemporâneos.

Mas talvez o símbolo mais potente da noite seja o reconhecimento ao Instituto Quilombola do Território do Sudoeste Baiano. Não se trata de uma entidade formal — trata-se da continuidade da luta de Palmares na terra do Sertão. Com 67 quilombos, 50 associações e articulação com municípios, governos e movimentos sociais, o instituto fortalece a agenda quilombola no campo da saúde, educação, moradia, cidadania e acesso às políticas públicas. É território, é pertencimento, é identidade.

Se o Troféu Zumbi revela a luta, o Troféu Paranauê traduz a resistência em movimento. Cada homenageado — Mestre Dendê, Tucano, Aponga, Guerreira, Contramestre Companheiro, Mestre Tal e Mestrando Preto — carrega na carne a ancestralidade dos que transformaram a dor em arte e a opressão em mandinga. A capoeira segue sendo escola, terapia, filosofia, inclusão social e afirmação de identidade. Sobreviveu à escravidão, à criminalização, ao preconceito e segue formando cidadãos, fortalecendo comunidades e salvando vidas.

A Câmara, ao entregar simultaneamente os dois troféus, envia uma mensagem clara: o combate ao racismo é inseparável da valorização da cultura afro-brasileira. Não se enfrenta desigualdade sem identidade; não se constrói justiça social sem memória histórica; não se produz cidadania apagando a negritude. Valorizar o povo negro não é favor — é dívida.

Que o plenário, no próximo 19 de novembro, não seja apenas palco de discursos, aplausos e fotografias oficiais. Que seja território de compromisso — para que Consciência Negra não ocupe apenas um mês no calendário, mas todos os dias na política pública, nas escolas, nas igrejas, nos bairros, nos índices do orçamento, nos currículos e no coração do Brasil.

O nome é Zumbi.
A arma é o conhecimento.
A ginga é a capoeira.
A luta continua.